Marrocos e Portugal decidiram recuperar o projeto de construção de uma interligação elétrica entre os dois países, através de um cabo submarino, numa iniciativa que está a provocar crescente mal-estar em Espanha. Em sectores políticos, económicos e mediáticos espanhóis, Lisboa é acusada de estar a aproveitar o momento particularmente difícil das relações entre Madrid e Rabat para assumir o papel de porta alternativa de Marrocos para o mercado energético europeu.
Os dois governos deverão aproveitar uma cimeira bilateral, prevista para o início de 2027, para acelerar os estudos técnicos e procurar financiamento junto da União Europeia. O investimento foi estimado, em 2018, em cerca de 800 milhões de euros, mas o valor encontra-se desatualizado e deverá ser substancialmente superior.
O projeto contempla uma ligação com capacidade próxima dos mil megawatts. Atualmente, Marrocos encontra-se ligado ao sistema elétrico europeu exclusivamente através de Espanha, por dois cabos submarinos de 400 quilovolts. Madrid e Rabat acordaram, em 2019, construir uma terceira interligação, de 700 megawatts, que deveria estar operacional antes de 2026, mas a infraestrutura nunca saiu do papel.
A ligação direta a Portugal permitiria agora a Marrocos deixar de depender exclusivamente de Espanha para comprar e vender eletricidade na Europa. Lisboa passaria a funcionar como uma segunda porta de entrada no mercado europeu, oferecendo a Rabat maior autonomia perante eventuais bloqueios políticos, técnicos ou comerciais impostos por Madrid.
Espanha queixa-se de Portugal
É esta possibilidade que está a alimentar o incómodo espanhol. Há quem considere que Portugal, em vez de articular o projeto com Espanha no quadro da cooperação ibérica, está a explorar uma fragilidade conjuntural do relacionamento entre Madrid e Rabat para reforçar a sua própria importância estratégica. A imprensa espanhola já descreve a operação como um verdadeiro ‘bypass’ elétrico destinado a contornar Espanha.

Por detrás dos sorrisos e abraços mostrados em público, a relação entre os dois governos já teve melhores dias
O mal-estar ganha particular relevância porque Portugal e Espanha partilham um mercado elétrico comum e mantêm uma cooperação energética estrutural. Qualquer grande interligação com Marrocos produzirá inevitavelmente efeitos sobre os preços, os fluxos de eletricidade e a segurança de abastecimento em toda a Península Ibérica. Em Madrid, questiona-se, por isso, que Lisboa possa avançar bilateralmente com Rabat sem integrar Espanha desde o início das negociações.
O projeto surge, além disso, durante a crise diplomática provocada pela entrada massiva de migrantes em Ceuta e pelas renovadas reivindicações marroquinas sobre Ceuta e Melilla. Embora o Governo espanhol não tenha responsabilizado formalmente Rabat pela crise fronteiriça, aumentaram em Espanha as acusações de que Marrocos utiliza a imigração e a energia como instrumentos de pressão política.
Para Portugal, a ligação poderá reforçar a segurança do abastecimento e diminuir a dependência da rede espanhola, uma fragilidade que o apagão de Abril de 2025 mostrou, ao mesmo tempo que voltou a revelar a vulnerabilidade da Península Ibérica e a insuficiência das suas ligações ao restante espaço europeu. O Governo português sustenta que uma conexão a África diversificaria as fontes de energia e facilitaria o aproveitamento da produção solar e eólica.
Lisboa garante, contudo, que o projeto só avançará com financiamento europeu ou investimento privado, evitando transferir os custos para os consumidores. Ainda não está definitivamente estabelecido se será instalado um cabo direto ou utilizada uma rota através de Espanha. Mas é precisamente a primeira hipótese que está a ensombrar as relações luso-espanholas: Madrid receia que Portugal esteja a transformar a crise entre Espanha e Marrocos numa oportunidade para se afirmar como ponte energética privilegiada entre África e a Europa.

















