O novo surto de Ébola registado em Bunia, no Nordeste da República Democrática do Congo, está a provocar um aumento dramático do número de mortes e a transformar as oficinas de carpintaria num dos centros mais visíveis da crise. Em algumas delas, as vendas de caixões terão crescido cerca de 50% desde o início do surto.
As autoridades congolesas contabilizam 604 casos confirmados e 2911 pessoas que estiveram em contacto com infectados. A epidemia, considerada a segunda maior alguma vez registada no país, ameaça agravar-se numa região onde os serviços de saúde já enfrentam falta de meios, insegurança e dificuldades de acesso.
Os enterros constituem uma das fases mais delicadas do combate ao vírus. O contacto com o corpo de uma vítima pode transmitir a doença, obrigando à intervenção de equipas especializadas. Organizações humanitárias, incluindo a Cruz Vermelha, utilizam caixões produzidos localmente, que são posteriormente desinfectados, fechados e transportados até cemitérios controlados.
A aplicação das regras sanitárias, porém, nem sempre é aceite pelas famílias. Em várias ocasiões, parentes das vítimas tentaram aproximar-se dos corpos ou impedir os procedimentos de segurança, por considerarem que os rituais tradicionais não estavam a ser respeitados.
Os fabricantes de caixões reconhecem o paradoxo: o negócio cresce à medida que a comunidade sofre. Embora cada venda permita sustentar famílias e trabalhadores, os carpinteiros admitem que nenhum ganho consegue apagar a sensação de viver rodeado pela morte.

















