Mehdi Hijaouy, 52 anos, em fuga e com mandado de captura internacional pendente, terá feito saber através de pessoas próximas que pode explicar "como se fez, a quem se fez" e revelar os 2,6 gigabytes extraídos ao chefe do Governo espanhol em maio de 2021. O homem que a imprensa espanhola aponta como o responsável operacional da utilização do 'spyware' Pegasus contra o Governo de Espanha, antigo quadro da DGED (o serviço de informações externas de Marrocos)n, está "na disposição de entregar" o material extraído do telemóvel de Pedro Sánchez, segundo fontes próximas citadas pelo diário ABC, numa investigação assinada pela jornalista Ketty Garat e avançada na segunda-feira, dia 7, também no programa 'Horizonte', da Cuatro.
A oferta, tal como é descrita por essas fontes, tem três partes: "como se fez, a quem se fez e o conteúdo dos 2,6 gigas". O ABC acrescenta que Hijaouy estaria ainda aberto a entregar conteúdo dos telemóveis de outros quatro ministros espanhóis. Garat descreveu-o em antena como "o instrutor, o chefe, o líder do Service Action" ( a unidade de operações encobertas dos serviços marroquinos ) e como "o arquiteto técnico do operativo Pegasus".
A ressalva é considerável: nada disto se traduziu, até ao momento, em qualquer ato processual. Hijaouy está em paradeiro incerto, com um mandado de captura internacional pedido por Rabat, e não há registo público de que tenha contactado a Audiência Nacional ou o Ministério Público espanhol. O que existe é uma disponibilidade transmitida por interpostas pessoas a jornalistas.
Um desertor com contas por ajustar
As versões sobre Hijaouy divergem consoante a fonte. A imprensa espanhola e francesa descrevem-no como antigo número dois da DGED, à frente do Service Action, e assessor de segurança de Fouad Ali El Himma, o homem forte do palácio, entre 2017 e o final de 2022. Rabat contrapõe que foi afastado há cerca de 15 anos por falta profissional grave e que se fazia passar por espião.
O percurso conhecido é este: fugiu de Marrocos em 2024, em plena guerra interna entre a DGED e a DGST, passou por França e chegou a Espanha, onde foi detido em setembro de 2024 ao abrigo de um mandado internacional. Marrocos acusa-o de pertença a organização criminosa, burla e promoção de imigração ilegal. A Audiência Nacional deixou-o em liberdade sob controlo judicial; o pedido de asilo foi recusado; deixou de comparecer às apresentações periódicas e passou a foragido. O seu advogado alega que a extradição poria a sua vida em risco, por deter "informação estratégica sobre o reino".
Onde está? As versões não batem certo
Aqui as fontes contradizem-se abertamente, e vale a pena registá-lo. O El Debate publicou esta terça-feira que Hijaouy vive escondido em Espanha, entre um apartamento em Mejorada del Campo (Madrid) e uma quinta em Cáceres, onde teria sido visto até há cerca de dois meses, segundo fontes das forças de segurança. Outras peças, apoiadas na reportagem do ABC, dão-no como tendo abandonado Espanha em fevereiro de 2025, para paradeiro desconhecido. O Escudo Digital, citando fontes da DGST marroquina, levanta a hipótese (não confirmada) de estar sob proteção do CNI, o serviço secreto de Espanha. Nenhuma destas versões foi verificada de forma independente.
O que já está judicialmente provado
O essencial do caso Pegasus não é especulação. O auto do juiz José Luís Calama, do Juzgado Central de Instrucción nº 4 da Audiência Nacional, dá como apurado que o telemóvel de Sánchez sofreu cinco infeções entre outubro de 2020 e dezembro de 2021, e que entre 19 e 21 de maio de 2021 foram exfiltrados 2,57 gigabytes de informação (os tais "2,6 gigas" ), mais 130 megabytes a 31 de maio. Registaram-se ainda quatro infeções no telemóvel de Margarita Robles (Defesa), duas no de Fernando Grande-Marlaska (Interior) e uma no de Luís Planas (Agricultura).
O que nunca se conseguiu foi identificar responsáveis. Calama arquivou provisoriamente o processo em julho de 2023 por "absoluta falta de cooperação jurídica de Israel", reabriu-o em abril de 2024 com dados enviados por França, e voltou a arquivá-lo em janeiro de 2026 pelo mesmo motivo. Deixou a causa, nas suas palavras, "em latência", até que novas fontes de prova permitam prosseguir: uma fórmula que torna a reabertura possível se surgir material novo. É exatamente esse o peso potencial de uma entrega por parte de Hijaouy.
O pano de fundo: Ceuta, Jabaroot e a ofensiva política
A história ressurge no pior momento para a Moncloa. Entre 30 e 31 de julho, mais de 60 mil pessoas atravessaram a fronteira de Ceuta em menos de 48 horas, numa crise que levou a Itália a suspender unilateralmente Schengen com Espanha. Em agosto, o grupo de hackers Jabaroot divulgou dados de cerca de 70 mil membros da DGST e da DGSN marroquinas, numa operação batizada "OP_CEUTA" e apresentada como "presente para a Europa e, em particular, para Espanha". O ABC atribui a Hijaouy a entrega desse material classificado ao grupo : mais uma alegação por confirmar.
Por agora, o processo continua arquivado, Hijaouy continua foragido, e a sua alegada disponibilidade continua a ser precisamente isso: alegada.

















