A Seat nasceu para pôr Espanha sobre rodas. Setenta e seis anos depois, uma das marcas mais identificadas com a industrialização espanhola enfrenta a possibilidade de perder progressivamente o lugar que conquistou na Europa — não por falta de história, mas porque a Volkswagen, sua proprietária, atravessa uma transformação que ameaça deixar pouco espaço para sentimentalismos.
A Sociedad Española de Automóviles de Turismo foi criada em 1950, durante o regime de Francisco Franco, através do Instituto Nacional de Indústria, com participação de bancos espanhóis e tecnologia fornecida pela Fiat.
O objetivo era simultaneamente económico, social e político: criar uma indústria automóvel espanhola, reduzir a dependência externa, gerar milhares de empregos — nomeadamente na Catalunha — e tornar o automóvel acessível a uma população que começava a sair dos difíceis anos do pós-guerra.
O sucesso do Seat 600
O primeiro SEAT 1400 saiu da fábrica da Zona Franca de Barcelona em 1953. Mas foi o 600, lançado quatro anos depois, que mudou Espanha. Pequeno, relativamente barato e produzido em massa, tornou-se símbolo de mobilidade e ascensão da classe média. Para muitas famílias espanholas, o primeiro automóvel foi precisamente um Seat 600.



Seat 600, 124 e 127: três modelos que conquistaram o mercado em Espanha, nos temos em que a fábrica espanhola tinha uma ligação com a italiana Fiat
Seguiram-se modelos como o 850, 124, 127 ou 131, praticamente todos ligados tecnologicamente à Fiat. A relação terminou no início dos anos 80 e deixou a Seat perante uma das maiores crises da sua existência.
Foi então que apareceu a Volkswagen. O grupo alemão iniciou a aproximação em 1982, entrou no capital quatro anos mais tarde e acabaria por assumir o controlo quase integral da empresa. Sob a Volkswagen nasceram alguns dos maiores sucessos modernos da SEAT, sobretudo o Ibiza e o León. Em 1993 foi inaugurada Martorell, uma das fábricas automóveis mais importantes de Espanha.
A Volkswagen salvou então a Seat. Hoje pode ser precisamente a crise da Volkswagen a colocar-lhe o futuro em causa.
Seat ou Cupra, eis a questão
O gigante alemão atravessa uma das maiores reestruturações dos seus quase 90 anos. A perda de terreno na China, a pressão dos fabricantes chineses, os elevados custos industriais europeus e a difícil transição para o automóvel elétrico obrigam o grupo a reduzir estruturas, trabalhadores e modelos.

Neste contexto existe uma pergunta particularmente incómoda: precisa a Volkswagen de manter simultaneamente Seat e Cupra?
Criada originalmente como expressão desportiva da própria Seat, a Cupra tornou-se marca independente em 2018 e rapidamente assumiu um posicionamento mais caro e rentável. É também aquela onde o grupo tem concentrado uma parte importante do investimento e da expansão internacional.
A Seat encontra-se, assim, numa situação paradoxal. Continua a vender centenas de milhares de automóveis e mantém modelos populares como Ibiza, Arona e León, mas vê a Cupra transformar-se progressivamente na estrela da empresa que nasceu em Barcelona.
Não seria a primeira vez que a história automóvel sacrificaria uma marca histórica em nome da racionalização industrial.
A grande ironia é outra: criada pelo Estado espanhol para construir uma indústria automóvel nacional, salva décadas depois pela Volkswagen alemã, a Seat pode chegar ao fim precisamente quando a fábrica de Martorell se prepara para desempenhar um papel central na produção de novos automóveis elétricos.
Em 1950, a pergunta era como dar um automóvel aos espanhóis. Em 2026, é outra: por quanto tempo ainda haverá automóveis com o nome Seat na grelha?

















