Joaquim Jorge, fundador do Clube dos Pensadores, uma tertúlia que ao longo dos levou até Gaia meio-mundo da política portuguesa, desistiu de ser o primeiro provedor do Munícipe, hoje novamente liderado por Luís Filipe Menezes Ao 24Horas, afirma-se “triste e desiludido” com o presidente da Câmara e acusa mesmo o autarca de ter protelado durante meses um projeto que, na sua perspetiva, já deveria estar em funcionamento.

“Cansei-me de esperar. Tudo tem um tempo e um limite”, afirma Joaquim Jorge, que apoiou Luís Filipe Menezes nas eleições autárquicas de 2025 e garante ter dado um contributo decisivo para a vitória do atual presidente da Câmara de Gaia.

O fundador do Clube dos Pensadores faz questão de deixar claro que nunca integrou listas, a direção de campanha ou qualquer estrutura partidária. “Fi-lo como cidadão”, diz, rejeitando que esse apoio pudesse comprometer a independência necessária ao exercício das funções de provedor.

Joaquim Jorge conta que, há cerca de dez meses, elaborou os estatutos da futura Provedoria e apresentou pessoalmente o projeto a Menezes. Diz ter ficado desagradado quando o documento foi posteriormente alterado sem que tivesse sido ouvido.

O pai da ideia

“Eu fui o pai da ideia, deveria ter sido ouvida a minha opinião”, lamenta ao 24 Horas.

Segundo Joaquim Jorge, a Provedoria deveria ter começado a funcionar até 60 dias depois da tomada de posse do executivo municipal. Com o mandato a aproximar-se agora do primeiro aniversário, concluiu que Menezes não pretendia avançar com o projeto consigo: “Apercebi-me de que me andava a empatar com evasivas e desculpas esfarrapadas”, desabafa.

Já em julho, o 24Horas tinha noticiado a demora na nomeação. Nessa altura, Joaquim Jorge dizia continuar a aguardar “com serenidade” e revelava estar a suportar cerca de 120 euros mensais em despesas de contabilidade para manter ativa uma empresa unipessoal criada no âmbito do futuro exercício das funções, empresa essa que Menezes o teria aconselhado a abrir, de forma a poder agilizar o recebimento dos honorários que Joaquim Jorge iria auferir pelo desempenho do cargo.

Luís Filipe Menezes e Joaquim Jorge: um convite não concretizado pôs termo a uma amizade de anos

Joaquim Jorge explica que a Provedoria permitiria aos habitantes de Gaia apresentar queixas relativas a ações ou omissões dos serviços municipais. O provedor analisaria os casos e apresentaria recomendações aos órgãos competentes, sem poderes de decisão: “A intenção da Provedoria era ajudar os cidadãos de Gaia e não fiscalizar os serviços”, salienta.

Apesar do afastamento, Joaquim Jorge garante que não pretende qualquer vingança e que continuará a pronunciar-se sobre a vida política do concelho sempre que considerar necessário: “Não estou zangado. Estou triste e desiludido”, afirma. E deixa uma crítica direta a Luís Filipe Menezes: “Não é a mesma pessoa da campanha”.

Joaquim Jorge diz continuar a considerá-lo “uma pessoa inteligente”, mas entende que o presidente da Câmara deve ouvir mais pessoas fora do seu círculo próximo.

“Eu fui presente, leal e ajudei-o muito a vencer a Câmara. Agora, o meu querido amigo Menezes não quis que eu o ajudasse”, conclui.