A história começa com 40 mil euros, passa por faturas feitas, anuladas e refeitas, mensagens pouco simpáticas no WhatsApp e termina — para já — com uma pergunta de cinco mil euros. Mas aquilo que parece uma simples guerra entre um consultor brasileiro e a campanha de Luís Filipe Menezes pode transformar-se numa dor de cabeça bem mais séria para o presidente da Câmara de Gaia.
A revista Sábado revelou na sua edição desta semana que André Gustavo, um publicitário brasileiro que em 2011 e 2015 chegou a trabalhar para o PSD nacional, foi contratado o ano passado para trabalhar na campanha autárquica de Menezes, reclama dinheiro que considera ainda estar por receber. O acordo, segundo a revista, era de 40 mil euros para vídeos, músicas, cartazes, textos, slogans e outros materiais. A candidatura garante que tudo o que era devido foi pago, mas o problema é que pelo meio ficou um verdadeiro ‘novelo’ de faturas.
A primeira tranche, de dez mil euros, demorou semanas a ser paga. E as mensagens mostram André Gustavo sucessivamente obrigado a alterar documentos e a repartir valores por diferentes rubricas para cumprir as exigências da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP).
Faturas refeitas
A certa altura, a mandatária financeira pede que uma proposta seja repartida entre “desenvolvimento estratégico de campanha”, comunicação, redes sociais e assessoria mediática. Só que as contas nem sempre batiam certo. André Gustavo perdeu a paciência, falou em “incompetência” e “burrice” e avisou que não queria voltar a trabalhar com o PSD.

Mas há uma mensagem particularmente interessante: quando ainda estavam por resolver 30 mil euros, Fernando Machado, então diretor de campanha e hoje vereador, perguntou ao brasileiro: “Quanto aos restantes 30.000 podemos falar para tentarmos um plano de pagamento?” E acrescentou que não podia permitir que alguma coisa prejudicasse a campanha ou Luís Filipe Menezes.
Os dez mil euros iniciais foram pagos. Outros 25 mil chegaram apenas em fevereiro de 2026, através de uma fatura emitida já em janeiro — fora do período normal de faturação eleitoral — situação que teve de ser justificada perante a entidade fiscalizadora.
E os cinco mil que faltam para chegar aos 40 mil? É aqui que precisamente começa a guerra: André Gustavo entende que continuam por pagar, enquanto a equipa de Menezes diz exatamente o contrário, no seu entender os cinco mil destinavam-se à deslocação de técnicos brasileiros a Gaia, viagem que não aconteceu, e por isso teria sido acordado descontar essa verba. Mais: o publicitário nunca chegou sequer a faturá-la.
Só que André Gustavo decidiu guardar munições. Mandou lavrar no Brasil uma Ata Notarial com 137 páginas de mensagens e ficheiros de WhatsApp, datada de 20 de julho de 2026, no fundo um autêntico diário digital das negociações da campanha.
As faturas ‘batem’ com as contas oficiais?
E é exatamente aqui que o caso deixa de ser apenas uma discussão sobre dinheiro, passando o verdadeiro problema a poder estar nas contas eleitorais, e colocando-se a questão é perceber se aquilo que foi contratado, aquilo que foi efetivamente prestado, aquilo que foi faturado e aquilo que acabou declarado nas contas da campanha são exatamente a mesma coisa.



Se forem, Menezes terá sobretudo um incómodo político para resolver, se não forem, a história muda de figura – até porque a legislação do financiamento eleitoral responsabiliza diretamente o mandatário financeiro pelas contas, mas estabelece também responsabilidade subsidiária dos primeiros candidatos das listas autárquicas. E o primeiro candidato em Gaia chamava-se Luís Filipe Menezes...
Isso não significa que, à partida, Menezes esteja hoje em risco imediato de perder o mandato, até porque não está demonstrado qualquer crime ou sequer uma irregularidade que produza semelhante consequência. Mas um jurista ouvido pelo 24Horas, pese embora considerar “precipitado” reduzir a questão a uma simples discussão comercial de cinco mil euros, admite outros desenvolvimentos: “Há detalhes em toda esta história que podem servir de pretexto para ser aberto um processo”, afirma.
De facto, se a ECFP confrontar as contas oficiais com as 137 páginas de mensagens e encontrar despesas omitidas, documentação que não corresponda aos serviços efetivamente prestados ou outras irregularidades relevantes, poderão surgir responsabilidades contraordenacionais. E, se viessem a ser descobertos factos de natureza mais grave previstos na legislação do financiamento político, a questão poderia entrar no terreno criminal, e conduzir a uma questão extrema – a de perda de mandato de Luís Filipe Menezes.
No fundo, a pergunta que fica por responder é só uma: o que dizem as contas oficiais da campanha de Luís Filipe Menezes e o que acontece quando forem colocadas lado a lado com 137 páginas de WhatsApp?
















