A decisão do Ministério da Justiça de ordenar uma avaliação interna e uma auditoria à Polícia Judiciária surge num momento de forte pressão política sobre a instituição e é encarada por vários observadores como uma tentativa de retirar força à proposta do Chega de constituir uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) à atuação da PJ durante os mandatos de Luís Neves na direção nacional. A iniciativa foi anunciada depois de se intensificarem as críticas da oposição e do próprio Chega, que já formalizou no Parlamento o pedido de criação da comissão de inquérito.

Ao optar por uma auditoria administrativa e uma avaliação interna, o Governo procura transmitir a ideia de que eventuais falhas ou irregularidades serão escrutinadas através dos mecanismos institucionais existentes, evitando que o debate político seja dominado por uma investigação parlamentar, tradicionalmente mais mediática e sujeita a maior desgaste público.

A estratégia poderá, assim, funcionar como uma forma de “secar” o impulso político da iniciativa do Chega, permitindo ao executivo argumentar que já estão em curso mecanismos de fiscalização independentes e que não existe, para já, justificação para abrir uma comissão de inquérito.

Ainda assim, dificilmente a medida encerrará a polémica. O Chega tem insistido que apenas uma CPI poderá apurar responsabilidades políticas e ouvir todos os intervenientes sob escrutínio parlamentar, enquanto outros partidos da oposição também exigem esclarecimentos sobre a gestão da PJ e os factos que têm marcado as últimas semanas.

A auditoria representa, por isso, não apenas um instrumento de fiscalização interna, mas também uma resposta política destinada a recuperar a iniciativa e a reduzir a pressão para que o caso seja discutido durante meses na Assembleia da República. Resta saber se o anúncio será suficiente para convencer os restantes partidos a travarem a comissão de inquérito ou se, pelo contrário, acabará por reforçar a perceção de que o Governo procura antecipar-se a um escrutínio parlamentar potencialmente mais incómodo.