O Livre aproveitou a 'rentrée' política para reafirmar a sua identidade ideológica e preparar uma nova geração de dirigentes. Sob o lema “Os Setembristas”, o partido recupera referências históricas da esquerda progressista e libertária, procurando demonstrar que possui um espaço próprio no sistema partidário e condições para crescer.

Rui Tavares, cofundador do Livre e responsável pela estratégia, comunicação e formação, identifica quatro pilares fundamentais: liberdade, esquerda, europeísmo e ecologia. Elementos que não podem ser analisados separadamente, porque é da sua conjugação que resulta a identidade política do partido.

Esta espécie de “pureza ideológica”, associada a uma imagem de coerência, moderação no discurso e firmeza nos princípios, permitiu ao Livre conquistar uma parte substancial do eleitorado urbano, jovem e progressista que durante anos encontrou no Bloco de Esquerda a sua principal representação. Enquanto o Bloco se foi desgastando através de sucessivas ruturas internas, escolhas estratégicas controversas e de uma linguagem política mais fechada, o Livre apresentou-se como uma esquerda mais moderna, europeísta, ecologista e disponível para construir soluções.

Em terrenos do Bloco

Na prática, o crescimento do partido de Rui Tavares contribuiu para liquidar eleitoralmente o espaço que o Bloco julgava ter consolidado. Não se tratou apenas de uma transferência de votos, mas também de uma mudança de protagonismo: o Livre passou a ocupar o território simbólico da esquerda inovadora, retirando ao Bloco capacidade de mobilização e centralidade política.

A liberdade surge como ponto de partida. Para o Livre, a ação política só faz sentido se contribuir para tornar os cidadãos mais livres. É também nesta matéria que estabelece uma fronteira com outras forças da esquerda, defendendo que os direitos humanos não podem ser relativizados em função da orientação dos governos que os violem.

O partido reivindica ainda a herança da esquerda liberal portuguesa, evocando Passos Manuel e os setembristas do século XIX, mas também figuras como Fernão Botto Machado, Angelina Vidal e Adelaide Cabete. Inclui igualmente referências europeias como Victor Hugo e Flora Tristan, além do mutualismo, associativismo e cooperativismo.

A formação de novos quadros assume agora importância estratégica. O Livre quer reforçar a organização, aumentar a influência pública e preparar-se não apenas para fazer oposição, mas para participar em soluções governativas. Depois de ultrapassar o Bloco na disputa pela esquerda progressista, o desafio será transformar a proclamada pureza ideológica numa base eleitoral mais ampla, sem perder a identidade que lhe permitiu crescer.