O crescente desgaste político em torno do chamado “caso Luís Neves” está a provocar um visível mal-estar no Palácio de Belém, onde aumenta a preocupação com o impacto institucional de um dossiê que ameaça prolongar-se e contaminar a relação entre a Presidência da República e o Governo.

Segundo fontes conhecedoras do processo, existe em Belém a convicção de que, caso a sucessão de revelações continue e o quadro político se agrave, o Presidente da República, António José Seguro, poderá vir a considerar inevitável exigir ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, a substituição do ministro da Administração Interna. A avaliação que circula nos meios políticos é a de que a permanência do governante poderá transformar-se num fator adicional de instabilidade para o executivo: "É inevitável lembrar o exemplo que deu Miguel Macedo, quando teve a decência de renunciar ao cargo de MAI, quando sentiu que tinha perdido aquilo que uma pasta de soberania daquele tipo exige: autoridade", lembrou ao 24Horas um destacado dirigente social-democrata.

O cenário, contudo, está longe de ser simples. Fontes próximas do Governo admitem que Luís Montenegro se confronta com uma dificuldade acrescida: Luís Neves já lhe terá transmitido que não tenciona abandonar o cargo por iniciativa própria, recusando uma saída voluntária do executivo.

Essa posição coloca o primeiro-ministro perante uma decisão politicamente sensível. Até agora, Montenegro tem procurado evitar que o caso assuma proporções de crise governativa, mantendo a confiança no ministro e resistindo às pressões da oposição. No entanto, à medida que o tema ganha dimensão mediática e política, aumenta também a pressão para uma solução definitiva.

Em Belém, o entendimento é que a credibilidade das instituições deve prevalecer sobre qualquer cálculo político. Embora a Presidência mantenha, para já, uma posição de reserva pública, interlocutores próximos admitem que o Presidente acompanha o processo com especial atenção e espera que o Governo seja capaz de encontrar uma resposta que salvaguarde a estabilidade política e a confiança dos cidadãos.

A evolução dos próximos dias poderá revelar-se decisiva. Se o “folhetim” continuar a produzir novos desenvolvimentos, cresce entre diversos setores políticos a convicção de que Luís Montenegro poderá deixar de ter margem para manter inalterada a composição do Governo, mesmo perante a resistência do próprio ministro em abandonar funções.