"O meu Bloco acabou." É desta forma que Mário Tomé, de 85 anos, justifica a saída do Bloco de Esquerda (BE), três dias após vários históricos terem abandonado o partido. Em declarações exclusivas ao 24Horas, o antigo deputado diz que deixa a militância "bem-disposto".

"Sinto-me muito bem, bem-disposto, otimista. O futuro deixou de estar no Bloco e, portanto, estou no meu lugar", afirmou.

Mário Tomé explica que pretende continuar a intervir politicamente através do ecossocialismo: "O socialismo sem ecologia não existe e a ecologia sem socialismo também não existe", defendeu.

O antigo dirigente diz ainda que ninguém da atual direção o contactou após a saída e deixa duras críticas ao partido: "Eles não sabem falar com as pessoas. Só sabem falar com quem está de acordo. Quem não está, eles arranjam um cerco e usam tudo, até aldrabices, para nos tentarem isolar na opinião pública", acusa.

Dá como exemplo as divergências em torno da guerra na Ucrânia: "Disseram que nós não tínhamos apoiado o povo ucraniano. Isso é uma infâmia", afirma, defendendo que a posição do grupo sempre foi: "Putin fora da Ucrânia e NATO fora da Europa."

Questionado sobre em quem votaria se houvesse eleições legislativas, Mário Tomé admite que poderá abster-se pela primeira vez: "A esquerda está descaracterizada, não tem estratégia nem pensamento crítico", atira.

O antigo deputado rejeita uma aproximação ao PS: "Para o lado do PS nunca. Representa a dissolução da social-democracia no neoliberalismo", afirma. Quanto ao PCP, reconhece respeito pelos dirigentes comunistas, mas afasta um voto no partido: "Admiro grande parte dos seus dirigentes, mas daí até votar no PCP vai uma distância."