Há 4 anos e meio em prisão domiciliar, a aguardar a decisão sobre o recurso apresentado no âmbito do chamado caso EDP/GES, processo em que foi condenado em primeira instância, o antigo ministro Manuel Pinho está prestes a lançar um novo livro, intitulado ‘A verdade é filha do tempo, lições de um percurso’, em que se propõe revisitar uma das marcas mais importantes da sua passagem pelo governo de José Sócrates - o Plano Tecnológico.
Num capítulo inteiramente dedicado ao tema, a que o 24 Horas teve acesso em exclusivo, o antigo governante não só reivindica a autoria e os resultados daquela estratégia, como deixa uma dura crítica às opções económicas seguidas pelo país nas últimas duas décadas.
Manuel Pinho recorda que aceitou integrar o governo com a missão de promover a modernização da economia portuguesa através de três pilares fundamentais: a qualificação dos recursos humanos, a tecnologia e o investimento, acreditando que foi precisamente essa estratégia que permitiu lançar as bases para duas das maiores histórias de sucesso da economia nacional contemporânea: o turismo e as energias renováveis.
Ao longo do capítulo, Pinho sustenta que os principais problemas estruturais do nosso país são o envelhecimento da população, Portugal tem a segunda população mais envelhecida da Europa logo a seguir à Itália, e a baixa produtividade, consequência direta de um reduzido investimento privado e público acumulado ao longo de décadas. Na sua análise, o país continua a apresentar um dos mais baixos níveis de capital por trabalhador da União Europeia, situação que ajuda a explicar salários baixos, emigração jovem e dificuldades persistentes no crescimento económico.
O antigo titular da pasta da Economia critica particularmente o período posterior à intervenção da troika, salientando o grande número de falências e a venda de muitas das grande empresas e defendendo que os sucessivos governos sacrificaram o investimento público para garantir o equilíbrio das contas do Estado. Segundo escreve, Portugal apresenta, de longe, o mais baixo nível de investimento público da União Europeia, entre os 8 países mais pobres e tal repete-se há mais de 10 anos. Além disso, o tecido empresarial é caracterizado por PME´s que têm, segundo ele, um problema de escala e por grandes empresas que perderam autonomia estratégica em virtude de terem sido vendidas a empresas estrangeiras.
O antigo governante rejeita igualmente a narrativa de que o sucesso económico português resultou exclusivamente do aumento das exportações. Na sua perspetiva, esta narrativa criou um sensação de falsa segurança que não corresponde à realidade. A verdadeira transformação ocorreu graças ao crescimento do turismo, dos serviços tecnológicos e à redução da dependência energética externa, impulsionada pela aposta nas energias renováveis.
Mas talvez a reflexão mais surpreendente surja nas páginas finais do capítulo. Manuel Pinho recorre ao conceito alemão ‘schadenfreude’, que significa o prazer perante o insucesso dos outros, para descrever aquilo que considera ser um traço cultural português. Na sua visão, existe em Portugal uma tendência para desvalorizar quem procura inovar ou promover mudanças, preferindo muitas vezes a segurança do imobilismo ao risco da transformação.
Mais de quinze anos depois de ter deixado o governo, o ex-ministro apresenta assim uma defesa política e económica do seu legado, sustentando que o país continua confrontado com os mesmos desafios que procurou enfrentar através do Plano Tecnológico: falta de investimento, baixa produtividade e dificuldades em criar riqueza suficiente para convergir com as economias mais desenvolvidas da Europa.

















