Manuel Pinho, antigo ministro da Economia dos governos de José Sócrates, está em prisão domiciliar há cerca de 4 anos e meio. Condenado em primeira e segunda instância a uma pena de 10 anos de prisão, Pinho recorreu há alguns meses para o Supremo Tribunal de Justiça, invocando vários vícios e eventuais prescrições para pedir na absolvição dos crimes de corrupção passiva, branqueamento de capitais e fraudes finais nos quais foi condenado, em junho de 2024, pelo Tribunal Central Criminal de Lisboa.
Prestes a lançar mais um livro, ‘A Verdade é filha do tempo, lições de um percurso’, como o 24Horas noticiou ainda esta semana, o antigo governante concedeu-nos uma breve entrevista a esse propósito:
24Horas -O que o levou a escrever este livro?
Manuel Pinho - Vivi um grande número de experiências e senti que tinha o dever de as partilhar na medida em que elas permitem tirar várias lições.
24H - Qual o seu objetivo?
MP - Partilhar experiências e convidar as pessoas a pensarem pela sua própria cabeça em vez de acreditarem em narrativas feitas por outros. Está na moda dizer-se que a culpa destas narrativas erradas é das redes sociais, mas tal não é verdade, a criação de falsas narrativas existe há muito tempo.
24H - Porque lhe deu o título de a verdade é filha do tempo?
MP - É uma máxima atribuída a Galileu que disse que a verdade é filha do tempo e não da autoridade. Galileu morreu em prisão domiciliaria depois de ter sido condenado pelo tribunal do Santo Ofício, mas posteriormente a igreja acabou por reconhecer que tinha errado. Pode demorar mais ou menos tempo, mas é sempre assim.
24H - Não me diga que se está a comparar com Galileu...
MP - Era mesmo o que faltava comparar-me ao pai da ciência moderna, mas a verdade é que a terra gira em torno do sol e não o inverso. Veja uma coisa... A aposta nas energias renováveis foi imensamente criticada, mas agora toda a gente concorda que se tratou de uma grande decisão. Se perguntar a um modelo de IA como o Chat GPT ou o Claude qual foi a área em que Portugal mais se distinguiu no século XXI terá como resposta as energias renováveis.
24H - É um livro de memórias?
MP - Não, nada disso - um livro de memórias é para Mandela! O meu propósito é partilhar episódios de um percurso que se desenrolou entre Portugal e o estrangeiro. De certa maneira, antecipei este movimento em que os jovens se recusam a ficarem fechados em Portugal. Tal como sucedeu comigo, a experiência que estes jovens estão a viver vai marcá-los para sempre.
24H – E a quem se destina, qual é o ‘publico-alvo’, digamos assim, deste seu livro ?
MP - A quem esteja interessado a olhar para situação no país e no mundo para além das aparências. Por exemplo, criou-se a falsa narrativa de que as exportações já representam quase 50% do PIB, mas a realidade é totalmente diferente, andam à volta de30%, o que sucedeu foi o fortíssimo crescimento dos serviços, em particular do turismo e dos serviços digitais. No estrangeiro o livro destina-se aos meus alunos e suas famílias e a quem acompanhou e reconhece o papel pioneiro de Portugal nas energias renováveis. Para estes, será publicada uma edição em inglês.
24H – E fala de quê, de que temas, de que assuntos?
MP - São para onde me levou a vida. Trabalhar no FMI, a entrada do escudo para o SME, que foi o antecessor do Euro, o Plano tecnológico, as energias renováveis e a China. Quase metade do livro trata destes 2 últimos temas. As energias renováveis são um tema que me é muito querido e visitei muitas vezes a China, que é um tema incontornável. A maioria das pessoas não tem noção de que para compreender a China é preciso ter em conta a sua história e o seu tecido social, que é muito diferente daquilo que se vê no Ocidente. Creio que os leitores vão encontrar informação que desconhecem.
24H – Como por exemplo?
MP – Olhe, a China é um laboratório fascinante de mudanças que estão sempre a acontecer, veja-se o caso das energias renováveis, das matérias raras e da IA. Não é preciso pancadaria para se fazerem mudanças, por isso não gosto da expressão reformas estruturais.
24H - A sua mensagem é otimista ou pessimista?
MP – Antes de mais é realista. Mas é otimista, basta olhar para os dois sucessos de que falo no livro, as energias renováveis e o turismo e pensar que eles se poderiam repetir noutra áreas, O caso da China é tremendo, em menos de meio século passou de um país onde o rendimento por habitante estava ao nível de Moçambique para um país que, em vários aspetos, está ombro a ombro com os Estados Unidos. Mas também é pessimista porque estes dois exemplos não são a regra, infelizmente são a exceção.
24H - Qual é em seu entender o maior problema em Portugal?
MP - É a baixa produtividade que, por sua vez, é um problema causado por o investimento público e privado ser tão baixo. Este problema devia estar no topo da agenda da nossa sociedade e não se trata com mezinhas.
24H - Mas Portugal até tem crescido razoavelmente bem...
MP - Nesta última década tem estado um pouco melhor, mas tal não se deve ao aumento da produtividade, mas ao grande afluxo de imigrantes e isso vai acabar.
24H - Como assim?
MP - Muitos países europeus mais ricos também precisam do trabalho de imigrantes, veja-se o caso da Espanha. Muitos dos nossos imigrantes irão para os países da Europa que pagam melhores salários.
24H – No seu livro, aborda o seu caso com a justiça?
MP – Pouco, até porque já há muito material publicado sobre o assunto para quem se queira informar. Mas tinha de falar deste caso porque é parte da minha vida e porque a ele se aplica também que a verdade é filha do tempo. O que hoje pode parecer verdade, amanhã pode não o ser.

















