Luís Montenegro que se cuide! Vitório Cardoso, nascido em Macau, dirigente da secção social-democrata no antigo território português e membro do Conselho Nacional do partido, está de olho nele e no Governo – para evitar “vergonhas” e “escândalos” por esse mundo fora e “por um Portugal grande”.

Ainda no último congresso social-democrata, que decorreu no fim-de-semana, na Anadia, Vitório subiu ao palco e falou aos seus pares. Partiu a loiça toda. Quatro minutos bastaram-lhe para reduzir o Governo a cacos.

Se ele mandasse, Paulo Rangel, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, e Fernando Alexandre, titular da Educação, já tinham ido pela borda fora. Nem a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, escapou à sua sanha: “Remeta o wookismo à sua esfera privada e deixe as nossas crianças em paz”.

Safa-se Luís Neves, o polícia que trocou a direção da Judiciária pelo Ministério da Administração Interna. Vitório, ainda que alarmado com a segurança nacional e uma certa incapacidade dos nossos serviços de inteligência, tem o ministro em boa conta – ao ponto de querer vê-lo militante laranja: “Lanço o desafio a Luís Neves a filiar-se no PSD. Devemos sempre vestir a camisola e o partido só teria a ganhar”.

Vitório vive em sobressalto com a ameaça que, na sua análise informada, paira sobre os nossos concidadãos da diáspora: “As comunidades portuguesas estão hoje na primeira linha de exposição aos conflitos internacionais” – e, por isso, a “segurança dos portugueses no mundo tem de ser reforçada”.

Não há ‘espião’ que lhe escape...

E num discurso que arrancou tantos sorrisos, como esgares de espanto no velódromo de Sangalhos, Vitório, que chegou mesmo a ser adjunto de José Cesário, o secretário de Estado das Comunidades que Paulo Rangel ‘escovou’ do palácio das Necessidades, pediu a nomeação do amigo e antigo chefe para ministro de uma pasta até agora inexistente – a das Comunidades Portuguesas, qual havia de ser?

Mas Vitório tem uma particular ‘queda’ para espiões e ‘secretas’... Desconfia do diretor do Serviço de Informações de Segurança (SIS), Neiva da Cruz, em funções desde janeiro de 2015. “Não podemos confiar que, enquanto país fundador da NATO, tenhamos o mesmo diretor do SIS há 12 anos no mesmo lugar” – clamou Vitório Cardoso, que não encontra no mundo exemplo de um chefe da inteligência há tempo no cargo: “nem nos Estados Unidos, nem no Reino Unido, nem no Japão, nem na Conchinchina…”. Na Conchinchina não se sabe como é. Mas nas democracias a tendência é que estes mandatos sejam extensos e as nomeações ocorram fora dos ciclos eleitorais.

O embaixador Vítor Sereno, antigo cônsul-geral em Macau, é um dos ‘ódios de estimação’ de Vitório Cardoso

E atirou-se como gato a bofe a Vítor Sereno, o discreto diplomata secretário-Geral do Serviço de Informações da República (SIRP), como quem anda de candeias às avessas, desde que Sereno fo cônsul-geral no antigo território sob administração portuguesa: “A mulher dele trabalhou para o governo chinês” do território, acusou.

Conhecido pelos seus arroubos patrióticos, Vitório exaltou-se: “Fomos potência imperial em Macau” – razão pela qual “não podemos aceitar que seja o governo chinês a assumir o orçamento da Escola Portuguesa de Macau”, culpa Sereno por aquilo que considera uma “vergonha” criada “há 10 anos”.

Socialistas nem vê-los...

Ainda em abril passado, apontou Vitório, 15 alunos dessa escola “foram enviados para quartéis chineses para cursos e cursinhos de endoutrinação patriótica chinesa”. Cardoso, porém, esqueceu-se de dizer que os alunos participaram voluntariamente por cinco num acampamento militar autorizados pelos encarregados de educação. A Escola Portuguesa de Macau é uma fundação e resultou de uma parceria entre o Estado português, a Fundação Macau e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses. Apenas em parte é financiada pelo governo chinês do território. Além de ter receitas próprias, através das propinas, é financiada em 51 por cento pelo Governo de Portugal.

Neto Valente, o ‘perigoso’ socialista a quem Vitório Cardoso também assestou baterias: quer vê-lo afastado da fundação que gere a Escola Portuguesa de Macau...

Vitório apontou a artilharia contra Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, e Fernando Alexandre, titular da pasta da Educação. Ambos “têm culpas no cartório” no estado a que se chegou na Fundação Escola Portuguesa de Macau: Rangel, porque “manteve a vice-cônsul em Macau”; Fernando Alexandre, porque não afastou o fundador do Partido Socialista em Macau, o advogado Neto Valente, da presidência da fundação promotora da escola.  

E num apelo dramático ao primeiro-ministro, em pleno congresso, Vitório Cardoso deixou o aviso: “Luís Montenegro, não toleramos mais a manutenção e recondução de socialistas nas instituições do Estado português e Macau e na Ásia”. Depois não digam que Vitório não os avisou…