Os tempos de espera no Hospital Amadora- Sintra, em Lisboa, atingiram nos últimos dias tempos elevados tempos de espera, mesmo em casos considerados urgentes. Ivone Penteado, de 51 anos, esteve quase 24 horas no Amadora-Sintra, depois de ter sido encaminhada do Hospital de Sintra na segunda-feira, dia 31. À espera de exames, medicação e atendimento, descreve ao 24Horas uma noite marcada por longos períodos de espera e condições que considera “desumanas”.

A paciente conta que chegou ao Amadora-Sintra por volta das 20:30. Revela que após a triagem, a sua prioridade passou de amarelo para laranja. Foi chamada por uma médica por volta das 22:00, que lhe terá indicado a realização de medicação, novas análises e outros procedimentos.

O problema, conta, surgiu depois: “Não fui chamada para a medicação, não fui chamada para as análises.” Segundo Ivone, uma enfermeira acabou por lhe explicar que existia um problema com o sistema informático.

A paciente só terá sido chamada para realizar os exames e receber medicação por volta da meia-noite. Foi-lhe indicado que o processo demoraria entre uma hora e meia e duas horas, mas acabou por permanecer no hospital durante toda a noite.

“Fui chamada no dia seguinte às 10:30”, conta. A alta só aconteceria perto das 13:00 de terça-feira, 1, depois de nova medicação, soro e outros procedimentos.

Doentes em macas e cadeiras à espera durante horas

Durante o período em que permaneceu no serviço de urgência, a paciente diz ter observado vários outros doentes em situação semelhante. “Estava lá uma senhora (...) numa cadeira de rodas”, recorda, descrevendo uma doente idosa que, segundo afirma, apresentava vários problemas de saúde e permanecia no local sem atendimento durante um período prolongado.

A noite terá sido particularmente difícil para os doentes que aguardavam em macas e cadeiras. Ivone relata também um episódio que envolveu uma mulher jovem que, após várias horas à espera, terá perdido a paciência e tentado abandonar o hospital. “Ela estava desesperada: ‘Eu quero ir embora daqui, não estou aqui a fazer nada’”, conta.

Outro dos aspetos que mais marcou Ivone foi o ambiente durante a madrugada. Segundo o seu testemunho, por volta das 2:00 as luzes foram apagadas e alguns profissionais terão permanecido sentados ou a descansar durante várias horas. “Às duas da manhã, apagaram a luz”, afirma. “As pessoas a gritar, a reclamar.”

Ivone diz ter voltado a observar a situação durante a madrugada e afirma que, entre as 2:00 e as 8:00, terá havido pouca intervenção junto dos doentes que aguardavam, só retomando às chamadas dos pacientes por volta das 8:30. “Está tudo a dormir”, terá comentado uma das pessoas que se encontrava no local, segundo o relato da paciente.

Ainda assim, Ivone faz questão de distinguir os profissionais das condições em que trabalham: “Há auxiliares que são bons, há enfermeiros que são bons, há médicos muito bons.”

Para a paciente, parte do problema estará relacionada com a falta de profissionais. “Porque eles não têm condições”, afirma, defendendo que a escassez de recursos poderá contribuir para situações de negligência. “Se durante o dia são dez médicos, à noite são dois”, exemplifica.

SNS admite problemas “inaceitáveis” no Amadora-Sintra

O caso relatado por Ivone Penteado surge numa altura em que a própria direção-executiva do Serviço Nacional de Saúde reconhece a existência de problemas persistentes no Hospital Amadora-Sintra. Álvaro Almeida considerou, nesta quinta-feira, 3, “inaceitáveis” os tempos de espera registados naquela unidade e admitiu que as dificuldades não serão ultrapassadas no curto prazo.

O diretor-executivo do SNS apontou a falta de profissionais, a pressão sobre a urgência e a dimensão insuficiente do hospital face à população que serve como alguns dos fatores que contribuem para o problema. A elevada percentagem de utentes sem médico de família na área de influência do Amadora-Sintra será também responsável por uma maior procura dos serviços de urgência.

Apesar de admitir uma redução dos tempos médios de espera face aos últimos anos, Álvaro Almeida sublinhou que estes continuam demasiado elevados em algumas unidades, entre as quais o Amadora-Sintra. Na quarta-feira, 2, os doentes classificados como urgentes aguardavam, em média, quase 11 horas pela primeira observação médica.

A administração do SNS espera agora que o novo conselho de administração do hospital consiga reforçar e estabilizar as equipas e reorganizar o funcionamento da urgência. Estão ainda a ser ponderadas alterações à organização da rede de referenciação para distribuir de forma mais equilibrada a procura entre as diferentes unidades de saúde. No entanto, a resolução dos problemas estruturais, admite o responsável, “não” acontecerá “no curto prazo”.