Portugal entrou no centro de uma das ramificações financeiras do chamado “caso dos hidrocarbonetos”, investigação que volta a colocar sob escrutínio Víctor de Aldama, empresário e comissionista ligado ao ‘caso Koldo’, uma das maiores crises políticas que atingiram os governos de Pedro Sánchez. Segundo informação revelada pelo El País e confirmada pela agência EFE, a Procuradoria Europeia suspeita que 27,9 milhões de euros foram transferidos de Espanha para Portugal entre 2022 e 2024, recorrendo a sociedades portuguesas que terão funcionado como empresas de fachada.
A investigação portuguesa nasceu depois de entidades bancárias terem sinalizado transferências avultadas provenientes de Espanha. Na origem do dinheiro estavam quatro empresas espanholas ligadas ao comércio de combustíveis: Salamanca Fuel, Canary Islands, Casmar Hidrocarburos e Obaoil 3000. A suspeita é de que sociedades portuguesas terão sido utilizadas para simular pagamentos por fornecimentos e permitir que receitas obtidas através de fraude fiscal regressassem posteriormente a Espanha devidamente ‘lavadas’.
Entre os empresários identificados na documentação estão, além de Víctor de Aldama, Nuno Miguel Santos, José Manuel Recio e Juan Catalán. A investigação portuguesa terá ainda identificado operações relacionadas com a sociedade Cálculo Corriente e com a Atmosferaudaz, empresa constituída em agosto de 2022 e ligada a Aldama, que terá recebido cerca de 7,4 milhões de euros provenientes de empresas do setor dos hidrocarbonetos.
Uma empresa ‘fantasma’
Com sede em Elvas, a Atmosferaudaz foi constituída em 31 de agosto de 2022, com apenas 500 euros de capital social e é detida a 100 por cento e gerida pelo referido empresário espanhol Víctor de Aldama, que possui igualmente ligações a outras duas empresas de direito português – à Cuboflamejante, e à Proezencontrada, onde possui o mesmo sócio, Luís Escolano Marín, também ele investigado no âmbito do ‘caso Koldo’.

Com um objeto social muito amplo, abrangendo consultoria, apoio empresarial, logística, imobiliário, construção, turismo e aluguer de automóveis. Em 2022, apesar de contar com apenas um empregado, declarou 680 mil euros em vendas e prestação de serviços, integralmente no mercado internacional, e registou um resultado líquido de 468,5 mil euros.
Segundo o que foi apurado pelo 24Horas, a Atmosferaudaz, que não apresenta contas há mais de 2 anos, não possui atualmente indícios suficientes de atividade comercial. É alvo, desde Fevereiro deste ano, de uma ação judicial intentada pela sociedade de advogados Abreu & Associados, no Juízo Local Cível de Elvas, com o valor de 2.429,07 euros, num processo supostamente por dívidas aquele escritório de advocacia.
Na ótica da investigação, do total detetado, cerca de nove milhões terão regressado a contas espanholas, outros montantes seguiram para o Reino Unido e para diferentes jurisdições internacionais, permanecendo uma parte significativa em Portugal. As autoridades portuguesas conseguiram arrestar aproximadamente 11,8 milhões de euros, colocando os valores à disposição da investigação espanhola.
Um ‘polvo’ de milhões
A dimensão política do caso resulta sobretudo do percurso de Aldama. O empresário tornou-se peça central do chamado “caso Koldo”, que atingiu diretamente José Luis Ábalos, antigo ministro dos Transportes e ex-secretário de Organização do PSOE, e o seu braço-direito, Koldo García. Em junho, o Supremo Tribunal espanhol condenou Ábalos a 24 anos e três meses de prisão e Koldo a 19 anos e oito meses por crimes relacionados com a trama das máscaras. Aldama foi condenado a quatro anos e meio, mas viu a execução da pena suspensa devido à sua colaboração com a Justiça.

Ábalos pertenceu durante anos ao núcleo político próximo de Pedro Sánchez e Koldo era o seu homem de confiança. A investigação judicial estabeleceu igualmente que a ligação entre ambos remonta ao início do primeiro governo Sánchez e passou por Santos Cerdán, então dirigente do PSOE, que recomendou Koldo a Ábalos.
Não existe, até ao momento, qualquer elemento conhecido que implique pessoalmente Pedro Sánchez nesta operação financeira. Mas a descoberta da rota portuguesa dos 27,9 milhões amplia uma investigação que já envolve empresários, antigos responsáveis governamentais e dirigentes que ocuparam posições relevantes na estrutura socialista. Portugal, inicialmente apenas destino do dinheiro, acabou assim, segundo a investigação, por desempenhar um papel decisivo: foram as autoridades portuguesas que detetaram os movimentos suspeitos, bloquearam parte dos fundos e forneceram à Procuradoria Europeia informação que agora regressa a Madrid para alimentar uma das investigações mais sensíveis da política espanhola.

















