É um cenário traçado pela imprensa britânica, a partir do relatório do Atlantic Council que mapeia os cinco pontos por onde Moscovo poderia testar a NATO.
Num momento de tensão acrescida entre Londres e Moscovo, com o Kremlin a ameaçar bombardear bases militares britânicas e o Reino Unido a abrir tecnologia classificada dos mísseis Storm Shadow a Kiev, conheceu-se esta semana uma reconstituição hipotética do que aconteceria se Vladimir Putin atacasse um país da NATO.
O exercício não é especulação de redação: assenta sobretudo em "Putin's next move? Five Russian attack scenarios Europe must prepare for", relatório publicado em fevereiro pelo Atlantic Council e assinado por Richard D. Hooker Jr., senior fellow do Scowcroft Center, antigo assistente especial do Presidente dos EUA e diretor sénior para a Europa e Rússia no Conselho de Segurança Nacional norte-americano, ex-vice-diretor do NATO Defense College em Roma. O ponto de partida temporal é um relatório dos serviços de informações dos EUA, noticiado pelo Telegraph, que admite um ataque russo à Aliança dentro de semanas, com janela de risco até 2029.
No “minuto um”: depois de meses de preparação discreta, a ação seria rápida. Hooker aponta alvos indefesos mas estratégicos: Svalbard (Noruega), Alanda (Finlândia) ou Gotland (Suécia). Em alternativa, uma incursão terrestre na Estónia, Lituânia, Letónia ou Polónia, com militares à paisana a criar um enclave separatista "em defesa" de uma minoria russa ou a abertura de um corredor até Kaliningrado através da Lituânia, disfarçada de exercício militar.
Nos primeiros 30 minutos: Moscovo apresentaria uma justificação política pública, como a “operação militar especial” contra a Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022. Em paralelo, analistas de informações fariam chegar relatórios urgentes aos decisores. Um ataque a qualquer um dos 32 membros conta como ataque a todos, ao abrigo do Artigo 5.º do Tratado da NATO.
Entre 30 a 60 minutos depois do ataque: reunião de emergência Cobra em Londres, com o Primeiro-Ministro Andy Burnham e o Secretário da Defesa Wes Streeting. O país atacado invocaria o Artigo 4.º ( “as Partes consultar-se-ão sempre que, na opinião de qualquer delas, estiver ameaçada a integridade territorial, a independência política ou a segurança de uma das Partes”), seguido de declaração conjunta a exigir a retirada russa. O preço do petróleo dispararia.
Entre duas horas e uma semana: a NATO ativaria os planos de defesa de 2023, com três comandos regionais. O Reino Unido reforçaria primeiro a Estónia, onde mantém 800 a 900 militares. Do outro lado, Moscovo consolidaria a ocupação com pseudo-referendos, ciberataques e desinformação, o mesmo manual de 2007 na Estónia.
O relatório é duro: Alemanha, França, Itália e Reino Unido não conseguem colocar uma divisão na Lituânia em menos de 60 a 90 dias, "demasiado lento para alterar o desfecho". Ruben Stewart, senior fellow do International Institute for Strategic Studies, acrescenta o problema logístico de gerir várias frentes com paióis vazios e sem garantia de resposta americana.
As notícias sobre este relatório coincidem no tempo com sinais do Governo britânico de estar a começar a preparar a população para a hipótese. Segundo o Guardian, o Cabinet Office prepara uma campanha nacional de resiliência que aconselhará as famílias a manter reservas de conservas e de água engarrafada, para fazer face tanto a fenómenos meteorológicos extremos como a ataques de estados hostis: a lógica é garantir que a maioria dos agregados se governa sozinha nos primeiros dias de uma crise, libertando os meios do Estado para os mais vulneráveis. Os planos, avançados primeiro pelo Financial Times, incluem uma reavaliação interna da preparação britânica para um ataque militar, e são coordenados por Louise Haigh, ministra do Cabinet Office e vice de facto de Andy Burnham. Dias antes, piratas informáticos ligados ao Irão tinham desligado uma central elétrica britânica: um pequeno gerador, sem risco para a rede, garantiu o Governo.
Recorde-se que, de visita a Kiev, Burnham acusou o Kremlin de "ameaças ultrajantes" e o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, respondeu que Londres "deita lenha na fogueira".

















