A polémica em torno da aquisição pelo Estado português de três fragatas FREMM EVO à italiana Fincantieri ganhou um novo capítulo. Enquanto permanecem sem resposta questões essenciais sobre uma operação de milhares de milhões de euros, responsáveis e especialistas italianos surgem publicamente a defender a escolha portuguesa, ao mesmo tempo que, de modo ‘cirúrgico’, chegam à imprensa elementos destinados a sustentar a superioridade da proposta italiana.

O contraste é evidente. No dia 3 de agosto, o 24Horas enviou diretamente à Fincantieri cerca de 20 perguntas sobre a sua representação em Portugal, consultores contratados, contactos com responsáveis públicos, eventual participação de intermediários e procedimentos destinados a prevenir conflitos de interesses. A empresa italiana não respondeu a nenhuma.

O pedido, dirigido à responsável de Media Relations da Fincantieri, Giorgia Bazurli, pretendia precisamente esclarecer quem representou e acompanhou os interesses do grupo italiano durante o processo português.

Também o Ministério da Defesa português, e o próprio ministro, a quem o 24Horas dirigiu há uma semana 49 questões, tem evitado, até agora, esclarecer cabalmente vários aspetos de uma transação que continua envolvida em controvérsia.

Itália entra em campo

Perante a dimensão alcançada pela polémica em Portugal, é agora o próprio lado italiano que parece sentir necessidade de explicar publicamente as vantagens das FREMM EVO.

Segundo o artigo hoje publicado pelo Expresso, Pier-Eric Pommelet, presidente dos estaleiros Naval Group, terá admitido que as fragatas francesas apresentadas a Portugal não davam garantias de entrega dentro do prazo. Do lado italiano, Andrea Margeletti, conselheiro do Ministério da Defesa de Itália, surge a defender que a FREMM EVO representa uma melhoria significativa relativamente à versão original.

Numa clara operação de comunicação com vista a conter eventuais danos reputacionais, a Fincantieri surge agora, pela voz de terceiros, a defender a excelência do negócio da venda das três fragatas à Marinha portuguesa

A mesma peça dá voz a Alessandro Marrone, responsável pelo programa de Defesa, Segurança e Espaço do Instituto Affari Internazionali, think tank sediado em Roma, que sublinha a capacidade tecnológica e a adaptação das fragatas italianas às novas ameaças, incluindo drones, guerra eletrónica, mísseis e minas.

Ou seja, enquanto a Fincantieri permanece em silêncio perante perguntas concretas sobre os bastidores do negócio, personalidades italianas surgem na imprensa portuguesa a explicar as virtudes do produto que Portugal decidiu comprar.
E aparece a tabela da Marinha

Há ainda outra circunstância particularmente ‘oportuna’: o Expresso teve acesso a uma tabela da Marinha Portuguesa comparando as FREMM EVO italianas com as propostas F110 espanhola, FDI francesa e ASWF dos Países Baixos.

O documento apresentado pelo semanário coloca a solução italiana em posição favorável em vários dos critérios avaliados, designadamente maturidade do projeto, cumprimento dos requisitos militares e capacidade de entrega. Segundo o artigo, a Marinha terá considerado que as FREMM EVO estavam “uma geração à frente” das fragatas francesas e que ofereciam maior segurança quanto aos prazos.

A divulgação destes argumentos seria perfeitamente normal num processo cuja transparência estivesse assegurada. O problema é outro: porque chegam através da imprensa informações destinadas a justificar a decisão enquanto continuam por responder perguntas objetivas sobre a forma como o negócio foi conduzido?

As perguntas que ninguém quer responder

Há cerca de um mês, o 24Horas colocou à Fincantieri, algumas questões, 19 para sermos mais concretos:

— Quem representa atualmente a empresa em Portugal; se nos últimos três anos foi alterado o seu modelo de representação no país; se ecorreu a novos consultores, mandatários ou entidades externas para acompanhar oportunidades relacionadas com Portugal; quais foram os critérios utilizados para selecionar essas entidades e quem tomou essa decisão, por exemplo.

Mas perguntou ainda se existem contratos com empresas portuguesas ou consultores independentes nas áreas de desenvolvimento de negócio, relações governamentais, public affairs, consultoria estratégica ou Defesa; quando foram celebrados; se algum surgiu especificamente devido ao programa das fragatas; e quantas entidades externas trabalham atualmente para a Fincantieri em Portugal.

E o 24Horas foi mais longe, perguntando se a Fincantieri estaria disponível para identificar todas as empresas e consultores que atuaram em seu nome em Portugal; se existiu a participação de terceiros mandatados pela empresa em reuniões com entidades portuguesas; ou se algum representante externo acompanhou reuniões com membros do Governo, Ministério da Defesa, Marinha ou outros organismos do Estado? Isto para além de terem sido colocadas questões sobre eventuais conflitos de interesses e ligações políticas, partidárias ou governativas dos representantes externos, bem como sobre as diligências efetuadas pela empresa para garantir a independência do processo.

Nenhuma obteve resposta, ou melhor, apenas uma curtíssima e elucidativa resposta, recebida quatro dias após o envio do nosso mail: “Thank you for your email. Fincantieri has no comment”, ou seja, “Obrigado pelo vosso email, Fincantieri não faz comentários”

E aqui reside a contradição que continua a marcar o negócio; há disponibilidade para explicar publicamente porque são as fragatas italianas militarmente superiores; há especialistas italianos disponíveis para defender as capacidades das FREMM; há até informação interna da Marinha Portuguesa que chega, muito oportunamente, à imprensa e permite comparar favoravelmente a proposta italiana com as concorrentes - o que continua a não existir são respostas às perguntas sobre alguns detalhes da operação a Fincantieri em Portugal.

O ministro Nuno Melo e a Fincantieri optam pelo silêncio, recusando-se a prestar os necessários esclarecimentos sobre uma transação que ronda os 4 mil milhões de euros

A questão nunca foi apenas saber se as FREMM EVO são boas fragatas, e se são adequadas às necessidades militares portuguesas, a questão, essa sim, é saber como foi conduzido um dos maiores negócios da história da Defesa portuguesa.

E, nessa matéria, tanto a Fincantieri como o Ministério da Defesa português continuam a preferir o silêncio. Quanto mais argumentos aparecem para explicar as qualidades dos navios e menos respostas existem sobre os contornos da transação, mais se adensa o mistério que ambos poderiam facilmente dissipar através de uma coisa muito simples: transparência.