O projeto Conta Lá aproxima-se de um momento decisivo. Com uma dívida que já rondará os quatro milhões de euros, o projeto televisivo que tem como ‘caras’ o controverso produtor Maurício Ribeiro, mais conhecido pelas trapalhadas em que há muito está envolvido, e Sérgio Figueiredo, o antigo diretor de informação da TVI que há duas semanas ensaiou um ‘recuo estratégico’, anunciando a sua saída do projeto, procura investidores capazes de evitar o mais que inevitável colapso financeiro.

Com mais de 4 milhões de dívida acumulada, uma mão-cheia de ações em tribunal, salários em atraso, e a navegar à vista desde há meses, a assembleia geral que se realizou na semana passada, e que teria de decidir sobre as medidas drásticas a assumir, tais como um despedimento coletivo que poderá reduzir para metade os cerca de 100 trabalhadores e um eventual ‘lay-off’ parcial, optou por suspender os trabalhos até amanhã, dia 12, altura em que será retomada.

E tudo porque, confirmando os rumores que já circulavam há algumas semanas, surgiram sinais de que Kevin Ho, um polémico empresário de Macau, poderá estar interessado em participar numa solução para evitar a mais do que previsível falência do Conta Lá, que até agora não consegue ultrapassar uma média de 100 espetadores por dia. Pelo menos é a ‘leitura’ que muitos fazem do surgimento em cena de Paulo Rego, uma figura com um sinuoso e curioso percurso na comunicação social, e que há muito é visto como um ‘homem de mão’ daquele empresário macaense.

Kevin Ho e Paulo Rego: uma ‘dupla’ controversa

Proprietário da Plataforma Macau, uma discreta publicação online daquele território, Rego chegou em tempos a ser administrador da Global Media pela mão de Kevin Ho, empresa onde, representando Kevin Ho, chegou a vice-presidente de uma administração que ficou célebre pela forma como, em tempo de alguma abundância, conseguiu ‘torrar’ milhões de euros, levando a empresa a atingir um passivo acumulado de mais de 30 milhões de euros. Há dias, surgiu de novo em cena, apresentando um plano de recuperação para o Conta Lá, e prometendo angariar supostos investidores dispostos a participarem numa solução para o descalabrado do projeto até há pouco liderado pela dupla formada por Maurício Ribeiro e Sérgio Figueiredo.

Há muito radicado em Macau, Paulo Rego é visto como um ‘homem-de-mão’ do empresário local Kevin Ho, que esteve por detrás da venda de dois edifícios que era as ‘jóias da coroa’ da Global Media

Paulo Rego e o seu ‘patrão’ Kevin Ho deixaram, porém, uma ‘marca’ controversa da sua passagem pela Global Media. Durante o período iniciado com a sua entrada no capital, foram vendidos dois dos ativos imobiliários mais emblemáticos do grupo: as antigas sedes do Diário de Notícias, em plena Avenida da Liberdade, em Lisboa, e do Jornal de Notícias, no centro da cidade do Porto - o primeiro alienado por cerca de 20 milhões de euros, e o segundo por cerca de 9 milhões, dinheiro esse que foi rapidamente sumiu por obra e graça de uma gestão ainda hoje recordada no grupo como “megalómana” e “ sem rei nem roque”.

Esses negócios imobiliários provocaram polémica devido às dúvidas levantadas sobre os valores das transações, à posterior valorização dos imóveis e às ligações existentes entre compradores e o universo do próprio acionista, tendo sido igualmente suscitadas questões sobre potenciais conflitos de interesses de Kevin Ho, enquanto acionista da Global Media e comprador de parte do seu património.

É com este passado como pano de fundo que Paulo Rego regressa agora ao centro de outro projeto de comunicação em dificuldades. O facto de ser um homem de confiança e representante dos interesses de Ho em diversas situações, leva muitos a suporem que poderá ser este empresário macaense a estar por detrás do suposto interesse demonstrado por Rego em ajudar a encontrar uma solução para o Conta Lá de Maurício Ribeiro e Sérgio Figueiredo, ambos sócios do projeto televisivo, embora este último se tenha, como quem passa por entre os pingos da chuva, aparentemente afastado da gestão diária.

No entanto, em Macau, onde se comenta ‘à boca pequena’ alegadas dificuldades financeiras mostradas por Ho nos últimos tempos, há quem defenda que esta ‘ofensiva’ do proprietário do Plataforma de Macau pode não passar apenas de uma maneira de Rego voltar à ribalta: “Ele adora dar nas vistas, dá o que tem e não tem para ser falado”, afirmou ao 24Horas um português há muito radicado naquele território, que admite tudo isto poder não passar de “uma encenação” com esse propósito.