A polémica em torno da aquisição das novas fragatas para a Marinha portuguesa traz  à memória de outro grande negócio militar que, durante anos, esteve envolvido numa nuvem de suspeitas: a compra dos dois submarinos da classe Tridente ao German Submarine Consortium, integrado pela alemã Ferrostaal. Um processo que nunca conduziu à acusação de Paulo Portas, então ministro da Defesa, mas que deixou um pesado rasto político e judicial, que ainda hoje 'belisca' a imagem pública do antigo líder do CDS.

O contrato foi assinado em 2004 e rondou os 880 milhões de euros. O que transformou uma aquisição militar num caso de polícia foram, sobretudo, as comissões pagas pelo consórcio alemão à ESCOM, empresa ligada ao Grupo Espírito Santo (GES) que funcionou como intermediária no negócio. O próprio Ministério Público viria a concluir que a ESCOM UK recebeu mais de 30 milhões de euros, estimando que cerca de 27 milhões terão ficado disponíveis para administradores da empresa e membros do GES, sendo que o destino integral desse dinheiro nunca foi reconstituído, nomeadamente devido à falta de resposta a diligências internacionais dirigidas às Bahamas.

O mistério do destino das comissões

As suspeitas chegaram à política. O Ministério Público investigou se parte das comissões poderia ter servido para favorecer decisores ou grupos políticos e procurou esclarecer a eventual relação entre o negócio e depósitos em numerário superiores a um milhão de euros realizados nas contas do CDS-PP, que ficou conhecido como o ‘caso Jacinto Capelo Leite Rego’, nome que constava dos cerca de 4 mil recibos de doação ao partido, e que fez soar as campainhas de alarme na Polícia Judiciária. Paulo Portas, que liderava o partido e tutelava a Defesa quando o contrato foi adjudicado, nunca foi constituído arguido nem acusado. O CDS sustentou que o dinheiro resultava de ações de angariação de fundos.

O financiamento do CDS, que recebeu na altura cerca de um milhão de euros de um estranho e inexistente doador, esteve no centro do ‘caso dos submarinos’

O processo principal acabaria arquivado em 2014. Foram investigados crimes de corrupção, branqueamento e fraude fiscal, mas o Ministério Público reconheceu não ter conseguido reconstruir todos os circuitos financeiros e reunir prova suficiente sobre o destino final das verbas.

Houve ainda um processo autónomo relativo às contrapartidas económicas associadas aos submarinos, com suspeitas de burla e falsificação. Dez arguidos chegaram a julgamento, mas foram absolvidos, decisão posteriormente confirmada pela Relação.

Duas investigações, dois epílogos...

Em contraste com o que sucedeu em Portugal, na Alemanha a investigação conduzida pelas autoridades judiciais teve um desfecho substancialmente diferente. No país de origem do consórcio envolvido no negócio, o processo avançou até à fase de julgamento e resultou em acusações formais e condenações por corrupção relacionadas com o pagamento de comissões ilícitas no âmbito da venda de submarinos. Vários responsáveis empresariais foram condenados pelos tribunais alemães, num desfecho que reforçou a perceção de que, nesse contexto, foi possível identificar e sancionar criminalmente práticas de corrupção associadas ao mesmo tipo de operações internacionais.

Jürgen Adolff (em cima), antigo cônsul honorário de Portugal em Munique, foi acusado de ter recebido cerca de 1,68 milhões de euros por ter organizado um encontro em 2004 entre um administrador da Ferrostaal e o então primeiro-ministro Durão Barroso, foi suspenso pelo governo de José Sócrates, seis anos depois

O resultado judicial em Portugal não apagou, porém, a marca política do caso: milhões pagos a intermediários, circuitos financeiros internacionais difíceis de seguir e suspeitas que atravessaram durante anos a vida política portuguesa sem que fosse demonstrado que Paulo Portas ou o CDS receberam dinheiro proveniente do negócio.

É precisamente esta memória que ajuda a explicar por que razão os grandes contratos militares continuam a ser observados com particular desconfiança. E é neste contexto que surge agora a polémica das fragatas: valores envolvidos, escolha do fornecedor, papel de representantes e intermediários, informação contraditória sobre preços e aparente falta de sintonia entre diferentes áreas do Governo voltam a colocar a transparência no centro do debate.

Pese embora os dois casos serem diferentes e não existir fundamento para transformar as suspeitas levantadas no processo dos submarinos em prova de irregularidades no negócio das fragatas, existe uma lição que ficou por aprender: quando estão em causa centenas de milhões de euros de dinheiro público na Defesa, tudo o que não seja absolutamente transparente acaba inevitavelmente por alimentar suspeitas...