Uma gigantesca rede de câmaras capaz de identificar e acompanhar automóveis está a espalhar-se pelos Estados Unidos e a provocar uma inesperada aliança entre organizações de defesa das liberdades civis, conservadores e cidadãos preocupados com a privacidade. No centro da polémica está a Flock Safety, empresa que já instalou cerca de 120 mil câmaras interligadas em território norte-americano.
O sistema lê matrículas e permite às autoridades procurar rapidamente um veículo e reconstruir os seus movimentos. Para as polícias, trata-se de uma poderosa ferramenta contra roubos, crimes violentos e suspeitos em fuga. Para os críticos, é o início de uma infraestrutura de vigilância com capacidade para saber onde esteve praticamente qualquer automobilista.
A controvérsia aumentou depois de serem conhecidos casos de utilização das bases de dados para objetivos diferentes daqueles que justificaram inicialmente a instalação das câmaras. Surgiram também preocupações sobre o acesso de autoridades de imigração e sobre pesquisas relacionadas com pessoas que procuraram serviços de aborto em estados onde estes estão restringidos.
O movimento de contestação já ultrapassa as tradicionais divisões políticas. Ativistas progressistas e defensores conservadores da privacidade encontram-se, neste caso, do mesmo lado.
A questão deixa de ser apenas tecnológica. Uma rede criada para encontrar criminosos pode transformar-se numa máquina capaz de reconstruir os movimentos quotidianos de milhões de pessoas. E a pergunta começa a impor-se: quem vigia quem vigia?

















