Viajar de autocarro sem pagar bilhete deixou de ser uma experiência isolada no Brasil. Segundo os dados apresentados pelo Jornal do Commercio, 153 cidades adotaram a tarifa zero, abrangendo uma população de 8,18 milhões de pessoas. O avanço da gratuitidade alimenta o debate sobre quem deve financiar os transportes públicos e como garantir a sua qualidade.

O tema está no centro do livro 'Tarifa Zero: Do Impossível ao Inevitável', organizado pela vereadora Iza Lourença e por Anna Carolina Leal, que reúne análises e experiências municipais. A tese é clara: fazer depender o funcionamento do sistema da receita dos bilhetes tornou-se um modelo insustentável.

Os autores descrevem um círculo vicioso: os preços sobem para cobrir custos, afastam passageiros, reduzem receitas e levam as empresas a cortar veículos e horários. A degradação do serviço favorece o transporte individual, agravando congestionamentos e poluição. Nas famílias de baixos rendimentos, refere a publicação, as deslocações podem absorver cerca de 20 por cento do orçamento.

Uma das propostas passa por transformar o vale-transporte, benefício associado às deslocações dos trabalhadores, numa contribuição direta das entidades patronais para o sistema. Daniel Santini, investigador e coordenador de projetos da Fundação Rosa Luxemburgo, sustenta que essa reformulação permitiria cobrir praticamente todos os custos operacionais dos transportes municipais.

O investigador defende uma gratuitidade universal, considerando que limitá-la aos mais pobres perpetua a ideia de um serviço assistencial, em vez de um direito de todos.

Belo Horizonte ilustra as resistências à mudança. Uma proposta de gratuitidade foi rejeitada por 30 votos contra dez, mas a pressão popular levou à adoção de viagens gratuitas aos domingos e feriados.

A discussão chega também à escala nacional, com a proposta de um Sistema Único de Mobilidade. O desafio é assegurar financiamento estável e qualidade: eliminar o bilhete não elimina os custos do transporte.