O ministro espanhol dos Transportes, Óscar Puente, atribuiu a colisão desta quarta-feira, dia 28, em Urda, na província de Toledo, a uma ordem do centro de controlo da Adif, em Atocha. Com o sistema de sinalização LZB em baixo, o controlo passa para o posto de Atocha, de onde partiu a decisão de deixar o comboio da Renfe retomar a marcha com normalidade, o que, segundo Puente, contraria os protocolos.

O ministro classificou como “inexplicável” essa decisão, sublinhando que, segundo as regras, a marcha não podia ser retomada normalmente porque o circuito estava ocupado e havia um sinal vermelho. O funcionário do centro de controlo que regulava o tráfego no momento do acidente está a ser interrogado.

O balanço mais recente aponta para, pelo menos, 68 mortos. Com estes números, o desastre já ultrapassa o de Adamuz, em janeiro. As autoridades não excluem que o número de vítimas continue a subir. O Instituto de Medicina Legal de Toledo está a preparar-se para receber os corpos.

A colisão aconteceu às 8h53 locais (7h53 em Lisboa), perto de Mora, Orgaz e Urda, no ponto quilométrico 118 da linha de alta velocidade, com dois comboios que faziam a ligação Madrid-Sevilha. O AVE 2080 da Renfe, com 397 passageiros, terá embatido na traseira do Iryo 6076, com 146 passageiros, que estava parado na via. Duas carruagens do Iryo e uma do AVE caíram por um talude após o choque.

Segundo a Guardia Civil, os dois comboios estavam parados quando foi dada ordem ao da Renfe para arrancar, sem que fosse informado de que o Iryo estava à frente. O jornal ABC noticia que um operário estava a reparar uma avaria na sinalização, a qual não alertou o comboio da Renfe para a proximidade do outro. A meteorologia foi totalmente posta de parte como causa.

Segundo a imprensa espanhola, entre as vítimas mortais está Fátima Báñez, antiga ministra do Trabalho de Espanha, que seguia no comboio da Iryo. Um dos maquinistas também terá morrido. Quase 60 feridos foram encaminhados para hospitais de Toledo, Alcázar, Ciudad Real, Albacete e Madrid, enquanto cerca de 50 feridos ligeiros recebem assistência nos pavilhões de Urda e Consuegra. O governo regional lançou um apelo urgente à doação de sangue em Toledo e Ciudad Real.

Óscar Puente afastou a hipótese de se demitir e garantiu que o sistema ferroviário espanhol é seguro. A pressão, porém, aumenta. O presidente da Associação de Engenheiros de Caminhos, José Trigueros, responsabiliza diretamente o ministro e atribui o acidente a uma falha do sistema LZB, que se teria avariado logo de manhã. Trigueros defende que, mesmo que o maquinista passasse um sinal vermelho, o sistema deveria travar o comboio automaticamente. Trata-se de uma avaliação pessoal, não confirmada pela investigação.

Pedro Sánchez esteve esta tarde em Urda, acompanhado pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska. PSOE e PP cancelaram as agendas da pré-campanha para as legislativas antecipadas de 29 de novembro, e o Congresso dos Deputados cancelou todos os eventos do dia. A Andaluzia e a Comunidade de Madrid decretaram três dias de luto oficial. A circulação em alta velocidade entre Madrid e a Andaluzia está suspensa.

Em Portugal, o Presidente da República, António José Seguro, enviou uma mensagem de pesar ao rei Felipe VI, e o primeiro-ministro, Luís Montenegro, disponibilizou ajuda às autoridades espanholas. O Ministério das Infraestruturas e Habitação ofereceu-se para colaborar no apuramento das causas.

A tragédia acontece nove meses depois de Adamuz, em Córdoba, onde comboios de alta velocidade dos mesmos dois operadores colidiram e provocaram a morte de 46 pessoas. A Associação de Vítimas de Adamuz enviou solidariedade às famílias, dizendo que Urda reabre feridas ainda por sarar. Com 68 mortos, Urda é o acidente ferroviário mais mortífero em Espanha desde Santiago de Compostela, em 2013 quando um comboio que fazia a ligação Madrid-Ferrol entrou numa curva a cerca de 180 km/h, num troço limitado a 80, descarrilou e várias carruagens foram projetadas contra um muro de contenção. Morreram 80 pessoas e houve cerca de 140 feridos. 

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