Israel saiu das eleições de terça-feira, dia 27,  sem vencedor claro. O desfecho está agora nas mãos de quem tradicionalmente fica à margem das negociações para formar governo: os partidos árabes. A Lista Conjunta e o Ra’am conquistaram 19 dos 120 lugares do Knesset, o melhor resultado de sempre e quase o dobro dos dez que tinham. Com mais de 90% dos votos contados, nem o "bloco" de Benjamin Netanyahu, com 53 deputados, nem o de Gadi Eisenkot, com 48, chega aos 61 necessários para governar.

Para o primeiro-ministro, é um recuo de 15 lugares face à maioria de 68 com que governava. O Likud continua a ser o partido mais votado, com 26 deputados. Os parceiros de coligação ficam com 27: Shas, Judaísmo Unido da Torá e Otzma Yehudit, de Itamar Ben-Gvir, com sete cada, e Sionismo Religioso, de Bezalel Smotrich, com seis.

Do lado da oposição, o Yashar, do antigo chefe do Estado-Maior, elege 21. A aliança B’Yachad, de Naftali Bennett e Yair Lapid, elege 12, os Democratas de Yair Golan oito e o Yisrael Beytenu de Avigdor Liberman sete.

Entre os partidos árabes, a Lista Conjunta conta 12 deputados e o Ra’am sete.

A subida dos partidos árabes assenta numa mobilização sem precedentes: a participação dos cidadãos palestinianos de Israel terá ficado perto dos 80%. É esse peso que torna o próximo governo tão difícil de montar.

A via aritmeticamente mais simples é também a politicamente mais improvável. Somados, os partidos de Eisenkot e as duas listas árabes têm 67 deputados. Mas, dentro da oposição, só os Democratas aceitam trabalhar com a Lista Conjunta ou com o Ra’am. Yousef Jabareen, líder da Lista Conjunta, já avisou que ninguém afastará Netanyahu sem passar pelo seu partido.

Netanyahu, por seu lado, precisa de oito deputados que não tem. O primeiro-ministro já garantiu a Ben-Gvir e a Smotrich que não os deixará cair, o que fecha a porta a soluções ao centro que exijam afastar a extrema-direita.

A hipótese de um entendimento entre Likud e Yashar agrada ao Presidente, Isaac Herzog, mas esbarra em dois problemas. Os dois partidos, sozinhos, não têm maioria. E Eisenkot já disse que não aceita servir sob Netanyahu, nem num modelo em que os dois alternem no cargo.

Se nenhuma destas soluções vingar, o país volta às urnas, o desfecho que Herzog mais teme. O Presidente pediu aos partidos que negoceiem sem ideias feitas e quer evitar regressar ao ciclo de bloqueios que Israel viveu há seis anos. A lei prevê várias rondas sucessivas de tentativas de formar governo, que podem prolongar o impasse por cerca de três meses antes de novas eleições.

Entretanto, o Likud contesta o resultado. O partido de Netanyahu acusa os partidos árabes de terem conseguido os votos através de fraude, suborno e intimidação, e pediu à polícia e ao Shin Bet que investiguem. A Comissão Eleitoral Central começou por afastar as acusações. Depois confirmou que está a analisar a queixa do Likud no quadro da fiscalização que faz em todas as eleições.

Os números ainda podem mudar. Faltam contar os votos em duplo envelope, de militares, diplomatas e doentes internados, e os resultados oficiais só serão conhecidos a 4 de novembro.

Em Washington, Donald Trump reclamou para si parte do mérito. O Presidente norte-americano defendeu que foi o seu apoio, anunciado nove dias antes das eleições, que evitou uma derrota pesada a Netanyahu.