Paulo Rangel já conhecia o lado menos diplomático das redes sociais. Em 2021, quando ainda era eurodeputado, tornou-se protagonista involuntário de um vídeo, gravado anos antes, em que aparecia a cambalear numa rua de Bruxelas, depois daquilo que o próprio descreveu como “um excesso num jantar com amigos”. O vídeo tornou-se viral e Rangel descobriu indignado que as redes sociais mordem. Cinco anos depois, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, parece ter feito as pazes com elas. Ou, talvez mais exatamente, descobriu que, se não consegue vencer o algoritmo, mais vale juntar-se a ele — e alimentá-lo.

Há cinco anos, um vídeo onde surgia aos tombos pelas ruas de Bruxelas, Paulo Rangel era uma vítima das redes sociais. Hoje é uma verdadeira estrela do Instagram...

E Paulo Rangel cultiva as redes e alimenta bem o algoritmo. Basta abrir o Instagram do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Há vídeos, muitos, mas há ainda mais fotografias. Rangel entra, Rangel sai, Rangel caminha, cumprimenta, discursa, recebe embaixadores, atravessa corredores, senta-se à mesa das reuniões, ufa! O corrupio irrequieto, quase sem pouso, é mais que muito, o afã em mostrar-se não engana ninguém.

Quase não se levanta da secretária em funções sem que alguém não guarde o momento para a posteridade, quase só falta que a indispensável câmara o acompanhe até à casa de banho. Tem pelo menos um videógrafo oficial ao serviço que o acompanha nas deslocações, nos encontros, nos bastidores. A diplomacia portuguesa ganhou assim uma produção visual contínua: cortes rápidos, legendas, retratos, fotografias de trabalho, planos de chegada e de partida, e pequenos balanços feitos pelo próprio ministro diretamente para a câmara.

O ministro raramente sai de cena com o país e o mundo por cenário. A página oficial deixou de ser apenas uma montra da diplomacia portuguesa: tornou-se também uma formidável montra de promoção do ministro. O homem que um dia foi apanhado pelas redes parece agora ter aprendido a dominá-las.

Montenegro? Só de raspão...

Há dias, num dos vídeos publicados, o ministro surge em Nova Iorque sob o sugestivo título “70.000 Passos — Uma semana de diplomacia em movimento”. Henry Kissinger, o famoso secretário de Estado norte-americano, celebrizou a shuttle diplomacy: voava entre o Cairo, Jerusalém, Damasco, Amã, saltando de uma capital para outra, falando com adversários, negociando tréguas, separando exércitos e tentando apagar os incêndios do Médio Oriente. Kissinger tinha um Boeing. Paulo Rangel tem uma versão atualizada para Instagram: vai a pé, pelos vistos, e tem um pedómetro. Um negociava acordos entre exércitos inimigos. O nosso ministro conta passos. Já há quem, no Ministério, lhe chame o “Kissinger de Mafamude”, numa referência à terra do concelho de Gaia onde nasceu e cresceu.

Nos vídeos que Rangel veicula profusamente nas redes sociais, Luís Montenegro, quando surge, é só de raspão

O filme é revelador do empenhado labor de Rangel em pôr-se em bicos de pés. O ministro não para. Cumprimenta um, reúne-se com outro, sobe a uma tribuna, atravessa uma sala, aparece na Assembleia Geral, volta aos apertos de mão e segue caminho, enquanto o contador continua a marcar: 23.237 passos, 30.193, 39.565, 46.473, 50 mil — até chegar aos 70 mil. Setenta mil passos — miúdos, como os de Rangel — dão qualquer coisa como 40 quilómetros. Ainda estamos longe das Vinte Mil Léguas Submarinas. Júlio Verne tinha o Nautilus. Rangel tem sapatos e um simples conta-passos.

Pelo caminho, dá conta de que se reuniu, entre outros, com o ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste, Bendito Freitas, com o venezuelano Félix Plasencia, com o iraniano Abbas Araghchi e até com o secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo, Mohamed Albudaiwi.

No meio do frenesim, Rangel é o mestre de cerimónias da sua própria agenda. Até fala para a câmara, em inglês, para explicar que o objetivo é manter “a diplomacia em movimento” — a passo — e levá-la ao Conselho de Segurança. Luís Montenegro ainda atravessa a produção, mas de raspão, apenas três quatro ‘frames’, não totalizando mais de 3 segundos, em 57 segundos de um filme em que o primeiro-ministro passa, e Rangel fica.

Quanto custa? Rangel cala-se

Se para os passos há contador, para os custos há silêncio. O 24Horas perguntou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em quantas deslocações Paulo Rangel se fez acompanhar por um videógrafo ou fotógrafo, quem eram esses profissionais e que vínculo tinham ao Ministério.

O gabinete de Paulo Rangel nas Necessidades ‘fecha-se em copas’ e recusa-se a responder quanto custa aos cofres públicos a cobertura de vídeo e fotografia que o ministro insiste em veicular nas redes sociais

Quis também saber, viagem a viagem, quanto custou essa produção de imagem: transportes, alojamento, ajudas de custo e outras despesas. E quem pagou. Se houve contratações externas, por que valor e através de que procedimento. O Ministério, tão desembaraçado a mostrar Rangel ao país e ao mundo, não encontrou a mesma disponibilidade para responder a nenhuma destas perguntas, aliás fazendo jus a um estilo que se impôs neste governo que é o de olimpicamente não responder às perguntas que lhe são colocadas, contribuindo assim para que se possa pensar tudo e mais alguma coisa.

Ficou igualmente por esclarecer se houve deslocações em que fotógrafos ou videógrafos acompanharam o ministro sem qualquer custo para o erário público. É uma curiosa mudança de velocidade. Nas redes sociais, a máquina de comunicação do MNE consegue seguir Rangel pelos corredores, pelas reuniões e pelas ruas de Nova Iorque, contar-lhe 70 mil passos e guardar praticamente cada movimento para a posteridade. Quando chega a altura de explicar quanto custa manter as câmaras atrás desses passos, a diplomacia entra subitamente em modo confidencial. O ministro mostra tudo, menos a conta.

Mal-estar no Governo

O protagonismo de Rangel não passa despercebido dentro do governo. Fontes governamentais dão conta de mal-estar entre ministros perante a forma como faz valer o estatuto de número dois do Executivo — estatuto que, de resto, ninguém lhe contesta. Ministro de Estado e primeiro na linha para substituir Luís Montenegro nas suas ausências, Rangel não precisa de se pôr em bicos dos pés. Mas, segundo as mesmas fontes, gosta de recordar que já lá está em cima: “Nos vídeos postados pelo Paulo Rangel parece que o primeiro-ministro nem existe, mal aparece...”, deabafa um membro do governo ao 24Horas.

“Muito Rangel, pouco Montenegro”, é assim que um membro do governo resumiu ao 24Horas a filosofia reinante nas redes sociais da diplomacia portuguesa

No próprio Ministério, o retrato não é mais suave. Fontes ouvidas descrevem um ambiente em que Rangel é temido e uma forma de exercer a autoridade resumida numa expressão: “quero, posso e mando”. Apontam-lhe arrogância, os gritos, o ar façanhudo quando as coisas não são ao seu jeito, dizem que cria mau ambiente e que tem pouca disposição para ouvir quem o rodeia. Ou, na formulação mais crua de uma dessas fontes: “não ouve ninguém”.

É neste contexto que a omnipresença do ministro nas redes ganha uma leitura diferente. Mostram até que ponto a comunicação institucional do Ministério foi construída em torno da sua figura. E não é preciso procurar muito: basta continuar a percorrer o Instagram do MNE.

Durante a Semana de Alto Nível das Nações Unidas, o Ministério transformou a passagem de Rangel por Nova Iorque numa pequena série televisiva: o primeiro dia do ministro, o segundo dia do ministro, o terceiro dia, o quarto dia… Em cada episódio, Rangel apresenta, comenta, caminha, entra, sai, explica — e volta a aparecer. A política externa portuguesa tem agenda. Paulo Rangel tem episódios.

O ministro está em movimento. Muito movimento. Diplomático, político e mediático. Ainda ninguém anunciou uma corrida. Mas, vendo os vídeos, fica a sensação de que há alguém já está nos exercícios de aquecimento.

Nem uma tomada de posse escapa

Nem é preciso sair do Palácio das Necessidades para perceber o método. Na mais recente tomada de posse do secretário-geral do Ministério, o embaixador Domingos Fezas Vital, as câmaras estavam, naturalmente, a postos. A cerimónia tinha um empossado, um antecessor, discursos, assinatura e fotografia de família. Mas teve também tratamento de ‘reel’: sucessão rápida de planos, grandes planos, cumprimentos, abraços, reações — e Paulo Rangel a ocupar uma parte substancial da narrativa. Até uma cerimónia interna do Ministério ganha montagem, ritmo e destino certo nas redes sociais.

Na tomada de posse do novo secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, imagine-se quem é a ‘estrela’ dos vídeos e fotografias postados? Paulo Rangel, é claro!

Há um pormenor que se repete. O vídeo não aparece apenas na conta oficial do Ministério. Surge como publicação conjunta de mne.pt e paulocastrorangel. O secretário-geral toma posse. A cerimónia é do Ministério. Mas Rangel não perde a oportunidade de a levar também para a sua montra digital.

Durante a Semana de Alto Nível das Nações Unidas, o Ministério foi publicando sucessivos episódios da passagem de Rangel por Nova Iorque — primeiro dia, segundo, terceiro, quarto — sempre com o ministro no centro da narrativa. Rangel é, em boa medida, o repórter de si próprio. Fala para a câmara, apresenta a agenda, resume encontros, anuncia os passos seguintes e conduz o espectador pela jornada. Até a chegada de Luís Montenegro entra num desses episódios sem lhe retirar o papel de narrador. A agenda diplomática transforma-se, assim, numa espécie de diário ilustrado de Paulo Rangel.

Nem mesmo quando a câmara é dos outros Rangel desaparece da montra. Uma entrevista concedida à CNN International foi prontamente recuperada pelas redes do Ministério e publicada, mais uma vez, em colaboração com a conta pessoal do ministro. O conteúdo da entrevista era, naturalmente, relevante. Mas a imagem também dizia muito: Paulo Rangel tinha falado à CNN Internacional — e convinha que ninguém ficasse sem saber.

De Tutankhamon ao 11 de setembro

Numa visita ao Egito, Paulo Rangel voltou a assumir o papel de repórter de si próprio e fez para a câmara o balanço da visita oficial. Entre encontros, apertos de mão e demais assuntos que costumam ocupar os ministros dos Negócios Estrangeiros, houve ainda espaço para uma informação que o país certamente aguardava com impaciência: o senhor ministro foi ao Museu do Cairo e viu o espólio de Tutankhamon.

O ministro vai ao Egipto? Foi ao museu visitar Tutankhamon? É certo e sabido que isso estará num ápice nas redes sociais do Ministério dos Negócios Estrangeiros

Milhares de anos depois, o jovem faraó voltou assim a prestar serviço público — desta vez, como figurante no diário de viagem do chefe da diplomacia portuguesa. Tutankhamon passou mais de três milénios fechado no túmulo. Um século depois de Howard Carter o ter aberto ao mundo, Paulo Rangel levou-o ao Instagram. Só faltou ter contado os passos até ao sarcófago.

Nem as grandes tragédias da História recente escapam à montra de Rangel. Para assinalar o 11 de Setembro, as redes recuperaram uma entrevista de Rangel à SIC, mas em versão concentrada: uma pergunta, uma resposta. “O 11 de Setembro foi um atentado contra a América ou contra o mundo ocidental?”. O ministro esclarece: “Contra o mundo ocidental”.

Do Cairo a Nova Iorque, de Tutankhamon às Torres Gémeas, das reuniões bilaterais aos corredores do Ministério, a fórmula pouco varia. Rangel fala, explica, caminha, comenta, faz o balanço — e alguém regista. É ministro dos Negócios Estrangeiros, mas nas redes tornou-se também correspondente permanente dele próprio.