Antiga militante do Bloco de Esquerda, dirigente do MAS e fundadora do Trabalhadores Unidos, Renata Cambra tornou-se um dos rostos mais visíveis das chamadas «acampadas». A sua crescente exposição pública revela também a emergência de uma nova força que procura disputar ao Bloco a influência sobre a esquerda radical e os movimentos de contestação.
Renata Cambra, 35 anos, professora e ativista, não é uma recém-chegada à política. Começou o seu percurso na militância estudantil em Coimbra, passou pelo Bloco de Esquerda e integrou a corrente que rompeu com o partido, participando na fundação do Movimento Alternativa Socialista (MAS), de que viria a ser dirigente.
Nas legislativas de janeiro de 2022, foi cabeça de lista do MAS por Lisboa, numa candidatura que obteve apenas 1452 votos naquele círculo, correspondentes a 0,12%. A nível nacional, o partido somou 6157 votos, 0,11% do total, não elegendo qualquer deputado. Um resultado que evidenciou as dificuldades de implantação eleitoral desta corrente da esquerda radical.
Em 2024, deu um novo passo com a criação do Trabalhadores Unidos (TU), uma organização de inspiração trotskista que pretende afirmar-se como alternativa política à esquerda do Bloco e que, em julho de 2026, obteve reconhecimento como partido político.
É neste contexto que deve ser interpretado o protagonismo que Renata Cambra conquistou nas recentes ‘acampadas’ de Lisboa e do Porto, manifestações inicialmente centradas na crise da habitação, mas que rapidamente passaram a incorporar reivindicações políticas mais abrangentes.
O Trabalhadores Unidos reconhece publicamente a sua participação nos protestos e Renata Cambra assumiu um papel particularmente visível na contestação à intervenção policial, chegando a recorrer aos tribunais para procurar impedir o desmantelamento das tendas instaladas no Rossio.
Mas a sua ambição parece ultrapassar a questão da habitação. Num espaço político onde o Bloco de Esquerda perdeu capacidade de mobilização, o TU procura ocupar terreno junto dos jovens, dos movimentos sociais e dos setores mais radicalizados da contestação, sendo que a estratégia passa claramente pela mobilização de rua, pelas assembleias populares e pela tentativa de transformar protestos setoriais numa frente política mais vasta, com apelos à greve geral.
A disputa que Renata tem vindo a assumir pela liderança da extrema-esquerda com o enfraquecido Bloco de Esquerda, hoje reduzido a um único deputado, e com claras divisões no seu seio, passa em grande parte por tentar assumir um crescente protagonismo na contestação social que já dá sinais visíveis em Portugal.

















