A entrada da Mota-Engil no capital da construtora brasileira Odebrecht Engenharia & Construção (OEC), através da aquisição de 40 por cento da empresa, operação que o 24Horas noticiou em primeira mão, representa um dos mais relevantes movimentos estratégicos alguma vez protagonizados pelo grupo português. A operação junta duas construtoras com uma presença histórica em África e na América Latina e cria um operador com capacidade para disputar alguns dos maiores projetos internacionais de infraestruturas nas próximas décadas: “Nasceu um verdadeiro ‘gigante’ no setor da construção no hemisfério sul”, comentou ao 24Horas uma fonte que conhece bem a realidade das infraestruturas nos dois continentes.
Na América Latina, a complementaridade entre as duas empresas é evidente. A Mota-Engil consolidou uma forte presença no México, Peru e Brasil, participando em obras como o Tren Maya, um projeto ferroviário superior a 15 mil milhões de dólares, a expansão do Porto de Callao, no Peru, os grandes empreendimentos mineiros de Las Bambas, Cerro Verde e Antamina, bem como a recente concessão da Rota dos Sertões, no Brasil, que prevê investimentos superiores a 1,6 mil milhões de dólares.

Por seu lado, a Odebrecht possui um dos mais impressionantes currículos da engenharia latino-americana, tendo construído ou participado em projetos como a Linha 1 do Metro de Lima, a Linha 4 do Metro de São Paulo, a hidroelétrica de Santo António, no rio Madeira, avaliada em mais de 7 mil milhões de dólares, a barragem de Chaglla, no Peru (cerca de 1,2 mil milhões de dólares), o projeto hidroelétrico de Manduriacu, no Equador, e a central termoelétrica de Punta Catalina, na República Dominicana, cujo investimento ultrapassou os 3 mil milhões de dólares.
Em África, o potencial de crescimento conjunto poderá ser ainda maior. A Mota-Engil é hoje um dos maiores grupos de engenharia do continente, liderando projetos como o Corredor do Lobito, entre Angola e a República Democrática do Congo, participando na barragem de Caculo Cabaça, avaliada em cerca de 4,5 mil milhões de dólares, além de milhares de quilómetros de estradas, aeroportos, portos, hospitais e infraestruturas urbanas em países como Angola, Moçambique, Nigéria, Gana, Uganda e Camarões. Neste último país, o grupo foi igualmente escolhido para desenvolver a linha ferroviária Kribi-Mbalam, um investimento estimado em 3,5 mil milhões de dólares, um dos maiores contratos da sua história.

Também a Odebrecht deixou uma marca profunda em África. A empresa brasileira participou na construção da barragem de Capanda, em Angola, uma das maiores centrais hidroelétricas do país, da barragem de Laúca, igualmente em Angola, um investimento superior a 4,5 mil milhões de dólares, da barragem de Gibe III, na Etiópia, uma das maiores infraestruturas hidroelétricas de África, e de diversos projetos rodoviários, mineiros e industriais em Angola, Moçambique e outros mercados africanos. Durante décadas, Angola foi, aliás, um dos principais mercados internacionais da construtora brasileira.
A conjugação destas carteiras de projetos, da experiência em concessões, energia, transportes, mineração e grandes obras públicas poderá transformar a nova parceria num dos mais importantes grupos de engenharia do hemisfério sul. Num momento em que África e a América Latina concentram uma parte crescente do investimento mundial em infraestruturas, a associação entre a Mota-Engil e a Odebrecht poderá representar um salto estratégico decisivo, reforçando a capacidade de ambas para disputar contratos de dimensão continental e consolidar a sua posição entre os maiores operadores internacionais do setor.

















