O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão ficou politicamente isolado dentro do partido que o elegeu. A notícia é avançada pelo Notícias de Famalicão que adianta que a estrutura concelhia do PSD aprovou uma resolução que retira a confiança política a Mário Passos e aos restantes eleitos sociais-democratas no executivo municipal, culminando semanas de confronto aberto entre o autarca e a direção local liderada por Paulo Reis.

A decisão, já comunicada a deputados municipais, presidentes de junta e demais eleitos, não transforma o PSD em oposição formal (o partido faz questão de o sublinhar) mas acaba com o apoio automático ao executivo. A concelhia reserva-se o direito de avaliar caso a caso cada proposta levada a votação, colocando o interesse do concelho acima da disciplina partidária.

O rastilho desta crise foi aceso a 3 de julho, quando Mário Passos chumbou em reunião extraordinária uma proposta do PS para homenagear dois antigos presidentes da Câmara: Agostinho Fernandes, socialista, e Armindo Costa, que conquistou o município para o PSD em 2001. O voto contrário do autarca contrariou frontalmente uma orientação favorável que a própria comissão política concelhia tinha aprovado por unanimidade na véspera e que Paulo Reis dera como praticamente garantida.

Confrontado na altura com o cenário de rutura, Mário Passos desvalorizou a ameaça, afirmando que só presta contas aos famalicenses e invocando o reforço eleitoral obtido nas autárquicas de 2025.

A tensão, porém, é anterior e estrutural. Já sob a liderança de Fernando Costa (2021-2024) surgiram os primeiros atritos, que acabaram por ditar a saída deste dirigente. A relação não melhorou com Sofia Fernandes, contra quem Mário Passos concorreu e perdeu nas eleições internas para a concelhia em 2024. Na composição das listas para as autárquicas de 2025, o presidente da Câmara recusou as indicações partidárias para os vereadores e exigiu a exclusão de quatro nomes propostos pela concelhia para a Assembleia Municipal entre eles o da própria Sofia Fernandes, então presidente do PSD local.

A resolução agora aprovada acusa o executivo de se ter afastado progressivamente dos valores da coligação “Mais Ação, Mais Famalicão”, apontando um resultado líquido negativo de 2,9 milhões de euros e derrapagens em investimentos estruturantes. O documento invoca ainda a máxima de Sá Carneiro, “primeiro o país, depois o partido, por fim as circunstâncias pessoais”, para sustentar que nenhum titular de mandato pode sobrepor a vontade individual à decisão coletiva dos órgãos partidários.

O caso ganhou ainda maior dimensão com uma carta de Armindo Costa, tornada pública após ter sido divulgada por um vereador, na qual o ex-autarca recusa que o seu nome seja usado em qualquer proposta alternativa de homenagem, classificando essa hipótese como profundamente incoerente. Outros militantes históricos, como Vítor Pereira, vice-presidente da Distrital de Braga, e Álvaro Oliveira, antigo líder da concelhia, também se manifestaram publicamente contra a posição do presidente da Câmara.

Mário Passos mantém a maioria absoluta no executivo, mas a retirada de confiança (mecanismo previsto na lei que regula os órgãos autárquicos) fragiliza a sua posição dentro da própria estrutura partidária e abre um período de incerteza sobre o futuro da coligação e o cenário para as autárquicas de 2029.