O ministro Fernando Alexandre garante que nenhum aluno será prejudicado no seu percurso académico pelo caos dos exames nacionais. É uma garantia tranquilizadora, sobretudo porque ninguém sabe ainda se a barafunda deixou estudantes à porta da universidade e famílias mergulhadas na angústia e na revolta. Mas nem tudo é incerteza neste processo: a trapalhada pode não ter comprometido o futuro de centenas de alunos, como assegura o ministro, mas já garantiu centenas de milhares de euros à Deloitte, uma das gigantes mundiais da consultoria e auditoria.

Há um segredo guardado a sete chaves nos gabinetes do Ministério da Educação: pelo menos seis técnicos especialistas e adjuntos ao serviço do ministro e dos secretários de Estado daquela pasta passaram pela Deloitte. O número pode, aliás, ser maior.

Apesar de várias tentativas, Fernando Alexandre não respondeu às sucessivas perguntas do 24horas sobre se também ele, na sua atividade de professor e consultor, prestou serviços à Deloitte. Nem quis revelar quem, entre os titulares de funções de relevo no Ministério, passou pela multinacional. A Deloitte, por seu lado, fechou-se em copas e não ajudou a desfazer o mistério. A dúvida é inevitável e este silêncio, tanto do ministro, quanto da própria consultora não ajuda nada a contrariar os ‘zunzuns’ que existem nos bastidores da nossa política sobre a suposta ligação de Fernando Alexandre com a Deloitte. Mais, reforça a oportunidade da pergunta: quando o Ministério contrata a Deloitte, quem garante que as antigas relações profissionais ficam devidamente à porta?

Entre os casos identificados, entre os membros de gabinetes que passaram pela Deloitte, está Ana Teresa Bettencourt de Noronha, técnica especialista no gabinete do ministro, que passou por lá uma década, entre 2015 e 2025. Foi recrutada para o Ministério da Educação em outubro do ano passado. Já o secretário de Estado Adjunto, Alexandre Homem Cristo, tem como adjunto Hugo Miranda Alves, outro antigo quadro da consultora. Trabalhou na Deloitte entre julho de 2021 e novembro de 2024, entrou na Educação como técnico especialista e foi nomeado adjunto em fevereiro deste ano. Também Simão Paulo Pedro, antigo quadro da Deloitte, integra o gabinete da secretária de Estado Maria Luísa Oliveira. A multinacional pode não ter uma representação oficial no Ministério, mas não lhe faltam antigos colaboradores nos corredores do poder.

Amigos para as ocasiões

No início de julho, o caos dos exames já estava instalado: alunos e famílias em sobressalto, professores classificadores ‘à nora’ e diretores de escola perdidos entre instruções tardias e contraditórias. Foi então que o ministro, sob fogo cerrado de críticas, correu a pedir socorro. A quem? À Deloitte, claro. As consultoras são para as horas de aflição — e, neste caso, a aflição teve um preço: 411.379,99 euros, mais IVA. Por dois ajustes diretos, um deles justificado por uma “urgência imperiosa”, a multinacional foi chamada a tentar salvar o que ainda havia para salvar da barafunda dos exames nacionais.

A intervenção da Deloitte fez-se em duas etapas. Em 2 de julho, o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA) começou por recorrer a um ajuste direto simplificado, de 4.999,99 euros mais IVA, para corrigir falhas na leitura e transferência de dados entre a Plataforma de Classificação e Supervisão e o sistema de classificação online. O remendo revelou-se insuficiente.

O ministro Fernando Alexandre recorreu à Deloitte para tentar ‘remendar’ o caos dos exames do secundário

Dez dias depois, o instituto assinou um segundo ajuste direto, agora de 406 mil e 380 euros mais IVA, para a consultora analisar as anomalias, prestar apoio técnico, acompanhar as correções e reforçar a verificação e monitorização das plataformas utilizadas na digitalização, distribuição e classificação das provas da segunda fase. Em linguagem menos contratual: primeiro, a Deloitte foi chamada para tapar os buracos; depois, para tentar garantir que o sistema não voltava a cair. O resultado permanece incerto; a fatura, essa, não deixa margem para dúvidas.

Sete milhões depois

Desde 2023, o antigo Instituto de Avaliação Educativa — entretanto substituído pelo Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação — celebrou 16 contratos relacionados com a digitalização dos exames, num valor global de cerca de 7,1 milhões de euros, acrescido de IVA. Um investimento milionário que não impediu que, na prova de fogo deste ano, alunos, famílias, professores e escolas acabassem mergulhados numa trapalhada. Quando o sistema começou a falhar, o Ministério chamou a Deloitte — que não figura entre as adjudicatárias daqueles 16 contratos — e entregou-lhe, por dois ajustes diretos, mais 411.379,99 euros, sem IVA, para tentar corrigir as falhas.

A relação da Deloitte com o Ministério, porém, não se resume ao socorro prestado durante o caos dos exames. Já durante o mandato de Fernando Alexandre, que tomou posse em 2 de abril de 2024, a Agência para a Gestão do Sistema Educativo celebrou este ano quatro contratos com a consultora, num valor global de 2,16 milhões de euros, sem IVA. Somando os dois ajustes diretos destinados a acudir às falhas da classificação digital, a conta aproxima-se dos 2,6 milhões. Nada mau.

Feitas as contas, desde que Fernando Alexandre tomou posse, organismos da administração educativa e instituições públicas de ensino superior — incluindo universidades e institutos politécnicos — celebraram, segundo o Portal BASE, pelo menos 15 contratos com empresas da Deloitte, no valor global de 4,76 milhões de euros, sem IVA. Ainda não se sabe se nenhum aluno foi prejudicado pela trapalhada dos exames, como garante o ministro. Sabe-se, isso sim, que a Deloitte passou com distinção: quase cinco milhões de euros em pouco mais de dois anos.

A Deloitte não chegou agora à sala de exames. Já conhecia o professor. Quando Fernando Alexandre foi secretário de Estado da Administração Interna, entre 2013 e 2015, o seu gabinete já contava com dois homens vindos da consultora: Pedro Miguel Rodrigues Brás da Silva, seu chefe de gabinete, e Luís Miguel Videira Cunha de Almeida Tavares de Pina, seu adjunto.

Mais de uma década depois, a Deloitte reaparece em força nos gabinetes e nos contratos da Educação. Coincidência, certamente. Mas uma coincidência com currículo, memória institucional e uma notável capacidade para passar de ministério em ministério sem nunca chumbar.