Passaram 23 minutos entre a avaria que paralisou a linha de alta velocidade entre Madrid e a Andaluzia e o embate que fez pelo menos 68 mortos e mais de uma centena de feridos em Urda, Toledo. Durante 17 desses minutos, segundo o Governo espanhol, o centro de controlo de Atocha teve nos ecrãs um AVE da Renfe a caminho de um comboio da Iryo imobilizado na via. Ninguém mandou parar. O balanço pode ainda subir: o presidente de Castilla-La Mancha, Emiliano García-Page, não exclui que surjam mais vítimas quando os vagões forem retirados. Eis o cronograma daqueles momentos fatídicos.

08:30 (hora de Espanha). Três computadores da rede ferroviária deixam de comunicar entre si. A falha deita abaixo o LZB, o sistema que vigia a circulação em alta velocidade, ao longo de 63 quilómetros em torno da estação de Urda. Seis comboios param de imediato, três em cada sentido. A partir daqui, quem decide é o centro de controlo da Adif em Atocha, em Madrid, e não o sistema. Segundo o elDiario.es, as gravações das chamadas mostram uma sala sob pressão, com várias vozes em simultâneo.

08:36. O operador dá luz verde aos seis comboios. Ao maquinista do AVE, que seguia com 397 pessoas a bordo, chega uma ordem para avançar ao abrigo do bloqueio de sinalização lateral “com marcha normal”, de acordo com os áudios a que a EFE teve acesso. O El País aponta aqui o primeiro desvio ao protocolo: sem o LZB, o comboio deveria seguir “à vista”, sem passar dos 40 quilómetros por hora. Óscar Puente, ministro dos Transportes, acrescenta outro dado. O AVE estava perante um sinal vermelho, numa via ainda ocupada pelo comboio parado mais à frente. Sem o sistema de segurança, o maquinista não tinha como saber o que estava à sua frente, a não ser pela voz de Atocha.

08:38. Alguns quilómetros adiante, no mesmo sentido, a maquinista da Iryo, com 146 passageiros, inicia o contacto com o centro de controlo para tentar retomar a viagem.

08:41. Nova chamada da Iryo. A maquinista informa que continua detida no sinal de entrada de Urda porque o comboio não lhe permite reiniciar o LZB. Do outro lado, pedem-lhe que desligue e volte a ligar o sistema e que siga também em marcha normal. Na mesma altura, o AVE já se deslocava na mesma via, em direção a ela.

08:48. A Iryo liga pela última vez para Atocha. O comboio continua parado.

Cerca das 08:53. O AVE, que tinha percorrido perto de 25 quilómetros desde que recebeu autorização para avançar, embate por trás no comboio da Iryo. Ainda não se sabe a que velocidade seguia. Naquele troço, a circulação pode chegar aos 200 quilómetros por hora.

Para o ministro, a responsabilidade da retoma é do centro de controlo, cujos operadores decidiram avançar “em circunstâncias que, do nosso ponto de vista, são inexplicáveis”. A imprensa espanhola admite um erro duplo: o operador que autorizou a marcha trabalhava sob supervisão de um colega.

O acidente de ontem ultrapassa em vítimas mortais o de Adamuz, em janeiro, e é já um dos mais graves da história ferroviária espanhola.