Comprar casa nunca foi tão difícil em Portugal desde que há registos comparáveis. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o índice de acessibilidade à habitação no País chegou aos 166,7 pontos em 2025, o valor mais elevado desde 1995 e o pior entre os 33 Estados-membros analisados.
Quanto mais alto o índice, maior o esforço exigido às famílias para se tornarem proprietárias. Portugal surge assim destacado no fundo da tabela, bem acima da média da OCDE e da zona euro.
O retrato agrava-se quando se olha para o custo das casas. No Indicador Analítico de Preços de Imóveis da OCDE, que é atualizado trimestralmente e cruza o poder de compra com os mercados de arrendamento e de compra, Portugal aparece em primeiro lugar no segundo trimestre deste ano, com 228 pontos. Seguem-se a Hungria, com 209, e a Croácia, com 177.
Na última década, a distância entre preços e salários tornou-se um fosso. Entre 2014 e 2024, os preços da habitação mais do que duplicaram, enquanto o rendimento médio das famílias cresceu 33%.
A explicação passa sobretudo pela falta de oferta. A OCDE já tinha apontado, no relatório económico sobre Portugal apresentado em janeiro, o fraco investimento em habitação ao longo de décadas, apesar da escalada de preços iniciada em 2013. Os números da Pordata confirmam o travão: em 2025 foram construídas 27 mil casas, contra 125 mil em 2002. Hoje, constrói-se num mês aquilo que há 20 anos se levantava numa semana.
Um levantamento feito pelos municípios estima que faltem 133 mil habitações no País. Do lado do Governo, o Ministério da Economia e Coesão Territorial prevê que o mercado receba apenas cerca de 40 mil casas novas ou renovadas.
O paradoxo é que casas não faltam no papel. De acordo com os Censos de 2021 do Instituto Nacional de Estatística, Portugal tinha 5,9 milhões de alojamentos, dos quais 69% eram habitação própria permanente e 19% segunda habitação. Cerca de 700 mil, 12% do total, estavam vagos, à venda, para arrendar ou em obras.
A consequência já se nota nos números da propriedade. Em 2025, a taxa de casa própria em Portugal desceu para 71,2%, o valor mais baixo dos últimos 12 anos.

















