Os negócios têm um talento especial para juntar amigos improváveis. O elogio feito há dias por José Sócrates à diplomacia económica de Paulo Portas recupera uma história em que as distâncias partidárias se encurtaram à medida que os interesses comerciais se cruzavam. Na empresa Iguarivarius, que faturou milhões com a venda de pernil de porco à Venezuela, encontraram-se Mário Lino e Vítor Escária, ex-ministro e ex-assessor de Sócrates, e Manuel Brandão, antigo chefe de gabinete de Portas. Vinham de campos políticos diferentes, mas acabaram do mesmo lado da mesa. E o que os juntava não era propriamente um programa de governo.

José Sócrates encontrou uma ocasião para elogiar Paulo Portas. Aconteceu na última quinta-feira, 10 de setembro, no julgamento da Operação Marquês, quando o antigo primeiro-ministro, acusado de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, decidiu repartir méritos com o governo que lhe sucedeu e atribuir-lhe a paternidade de um acordo favorável ao Grupo Lena na Venezuela: “Este acordo é da maior importância. Foi feito no tempo do dr. Passos Coelho. Não posso ser mais elogioso”, declarou.

O elogio tinha destinatário certo: Paulo Portas, então ministro dos Negócios Estrangeiros. Na política, estavam em campos opostos. Nos negócios com Caracas, as fronteiras revelaram-se bem mais permeáveis.

Sócrates não fez o elogio por acaso. O Ministério Público sustenta que o Grupo Lena terá entregado quase 2,4 milhões de euros ao antigo primeiro-ministro em troca de apoio privilegiado nos projetos de habitação social na Venezuela. José Sócrates rejeita a acusação e procurou atribuir ao executivo PSD/CDS que se lhe seguiu, nos anos da troika, o trabalho diplomático que considerou decisivo para a construtora.

O ex-primeiro-ministro não falava de carne de porco, mas de casas. Ainda assim, o percurso dos negócios alimentares com Caracas revela outro tentáculo de um polvo feito de adversários políticos que, nos negócios, surgem de mãos dadas - não apenas pela continuidade dos acordos de um governo para o seguinte, mas também pelo encontro, numa mesma empresa exportadora, de antigos colaboradores de dirigentes que se confrontavam na política.

Então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas recebido em Caracas por Nicolás Maduro, o antigo presidente venezuelano hoje preso em Nova York

Essa empresa era a Iguarivarius, uma sociedade que fez da Venezuela um dos seus principais mercados. E o elo tinha nome: Alexandre Cavalleri, o empresário que reunirá à sua volta um ex-ministro e um ex-assessor de Sócrates e também um antigo chefe de gabinete de Portas – uma santíssima trindade dos negócios constituída, respetivamente, por Mário Lino, Vítor Escária e Manuel Brandão.

Brandão e Portas: uma relação de confiança

Manuel Mendes Brandão chegou ao Ministério da Defesa, em abril de 2002, como consultor do ministro, isto em pleno governo de Durão Barroso. Ano e meio depois, em novembro de 2003, passou a chefe de gabinete.

A confiança de Paulo Portas em Brandão ficou registada de forma particularmente expressiva em março de 2005. Ao condecorá-lo com a medalha de ouro de serviços distintos, Portas destacou a sua “extrema lealdade, grande coragem moral, uma abnegação ímpar e um elevadíssimo sentido de Estado”. Não era apenas mais um nome na estrutura ministerial: era um colaborador a quem o ministro prestava um público e extenso agradecimento.

Anos depois, em dezembro de 2011, já no governo de Passos Coelho, e com Portas dessa feita à frente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Manuel Brandão passou pela administração da AICEP, a agência pública de apoio ao investimento e ao comércio externo, então presidida por Pedro Reis, que mais tarde viria a ser ministro do primeiro governo de Luís Montenegro.

Hoje aparentemente dedicado à gestão de dois restaurantes italianos em Lisboa, Manuel Brandão é visto como um dos principais homens de confiança de Paulo Portas

É na AICEP que o percurso de Manuel Brandão se cruza diretamente com o negócio do pernil venezuelano. Brandão foi administrador da agência entre 2011 e 2014, com o pelouro da exportação, período em que acompanhou a Iguarivarius enquanto empresa exportadora para a Venezuela. Depois de deixar a AICEP, a relação com a empresa mudou de natureza: tornou-se seu consultor e, em novembro de 2017, entrou na administração.

A sequência importa: primeiro, acompanhou a exportadora enquanto gestor na entidade pública que fomentava as exportações, depois, trabalhou para ela como consultor; finalmente, tornou-se administrador.

Mas a cronologia também obriga a uma precisão: quando foi celebrado, em 2016, o contrato de fornecimento de carne à Venezuela, Manuel Brandão ainda não integrava a administração da Iguarivarius - só entraria para esse órgão no ano seguinte. Lá,  Brandão encontrou um antigo ministro socialista — Mário Lino — que também conhecia, como poucos, o caminho para Caracas.

Lino e Escária, do Governo para o pernil

Mário Lino tinha participado, enquanto ministro das Obras Públicas de Sócrates, no aprofundamento das relações económicas com a Venezuela. Acompanhara projetos de construção e negociações entre empresas portuguesas e as autoridades venezuelanas. Já fora do Governo, entrou na administração da Iguarivarius em 11 de janeiro de 2011 e, ainda segundo os jornais, assumiu mesmo a presidência do conselho de administração em março de 2013.

Depois de sair do governo, Mário Lino regressou aos negócios com a Venezuela, mas já não em nome do Estado. Passou a participar nos trabalhos da comissão Portugal–Venezuela em representação da Iguarivarius. O mercado era o mesmo. O lugar que ocupava à mesa era outro.

Mário Lino não era o único homem de Sócrates com ligações à Iguarivarius. Vítor Escária, antigo assessor económico do primeiro-ministro, participara na preparação das missões empresariais e conhecia responsáveis venezuelanos com influência nos contactos entre os dois países. A sua agenda telefónica valia, por isso, muito mais do que um simples cartão de visita para uma empresa com negócios em Caracas. Havia ainda uma ligação pessoal: Escária e Alexandre Cavalleri eram amigos de infância.

Em maio de 2014, Escária era apresentado como membro do conselho consultivo da empresa, e nesse mesmo mês, tornou-se sócio da Ribeiro Carvalho Cavalleri, a sociedade gestora de participações sociais que controlava a Iguarivarius.

As ligações deste trio ao negócio do pernil venezuelano tinham, portanto, naturezas diferentes: confiança política entre Portas e Brandão, funções governativas e empresariais sucessivas no percurso de Lino, amizade de infância e colaboração profissional no de Escária. Caminhos diferentes, o mesmo destino empresarial.

Serrasqueiro abre o caminho para Caracas

A aproximação comercial à Venezuela começara a ganhar forma em 2005, no início do primeiro governo de Sócrates, com Fernando Serrasqueiro, secretário de Estado do Comércio, e amigo de longa data do então primeiro-ministro. Numa deslocação ao país, identificou oportunidades para os produtos portugueses, tanto junto da comunidade emigrante como nas compras realizadas pelo Estado venezuelano. Seguiram-se contactos políticos, missões empresariais e novas deslocações a Caracas, num lucrativo carrossel que começava a girar.

Em 2008, o ministro da Economia, Manuel Pinho, e o responsável venezuelano pela Energia e pela petrolífera PDVSA, Rafael Ramírez, assinaram em Lisboa um acordo destinado a ampliar as trocas comerciais. Do lado português, as oportunidades estendiam-se da alimentação à construção, passando pelos medicamentos e pelos equipamentos.

Alexandre Cavalleri teve o ‘dom’ de rodear-se no seu negócio de homens de Sócrates e de Portas

Nestes primeiros passos rumo a Caracas, Alexandre Cavalleri era diretor comercial da Montebravo, onde foi adquirindo experiência no mercado venezuelano e construindo contactos para a exportação de carne de porco. Mais tarde, decidiu avançar por conta própria, criando a Iguarivarius, concebida como intermediária entre os produtores e os compradores.

Só o pernil rendeu 100 milhões

A mudança de governo em Portugal não travou o relacionamento com Caracas. Notícias de 17 de janeiro de 2015 dão conta de um encontro, realizado na véspera, entre Paulo Portas e Nicolás Maduro, durante uma escala do presidente venezuelano em Lisboa. Portas era então vice-primeiro-ministro no Governo de Pedro Passos Coelho. Segundo a então ministra venezuelana da Comunicação e Informação, Delcy Rodríguez (essa mesma, a hoje presidente venezeulana...), foram “passados em revista acordos energéticos, de habitação social, de estradas e de linhas aéreas”.

As notícias não referem pernil de porco, Iguarivarius, Lino, Escária ou Brandão. Documenta, contudo, que os acordos com Caracas continuavam a ser acompanhados ao mais alto nível político, já depois da saída de Sócrates.

A Iguarivarius vendeu, entre 2012 e 2017, mais de 54 mil toneladas de pernil congelado à Venezuela. Nem todo o pernil era português: parte da carne vinha de Espanha. A receita do negócio terá superado os 100 milhões de euros. Mas o pernil estava longe de ser o único produto: a empresa também fez negócios com laticínios, conservas de peixe, bens industriais e cabazes alimentares. Somando os restantes contratos no mesmo período, a faturação rondará os 200 milhões de euros.

José Sócrates, aqui com Hugo Chávez, apostou nas relações económicas com a Venezuela. Portas seguiu-lhe o exemplo

A diplomacia económica abriu portas na Venezuela. Depois, os percursos cruzaram-se. Mário Lino e Vítor Escária traziam consigo a marca dos governos de Sócrates; Manuel Brandão, a confiança política de Paulo Portas e a passagem pela AICEP, onde acompanhara a própria Iguarivarius enquanto empresa exportadora. Anos depois, os três acabariam ligados ao mesmo universo empresarial — precisamente aquele que fez milhões com os negócios em Caracas.

De novo a Defesa

Muito antes de aparecer nos negócios da Iguarivarius e do pernil venezuelano, Manuel Mendes Brandão já se movia num território onde política, Estado e contratos de centenas de milhões de euros se cruzavam: a Defesa. Homem da confiança de Paulo Portas, passou pelo gabinete do ministro e pela Comissão Permanente de Contrapartidas numa época marcada por dois dos negócios mais controversos das últimas décadas — os submarinos e os Pandur.

Brandão integrou a Comissão Permanente de Contrapartidas entre 2002 e 2005. Em abril de 2004, foi um dos membros que aprovaram, por unanimidade, os projetos de contrapartidas associados à compra dos dois submarinos ao German Submarine Consortium (GSC), consórcio de que fazia parte a Ferrostaal.

O negócio ficaria durante anos debaixo de suspeita. O Ministério Público investigou as circunstâncias em que foram negociados os contratos de aquisição, financiamento e contrapartidas e constituiu arguidos por suspeitas de fraude fiscal qualificada, branqueamento e corrupção.

No centro das atenções estava também a ESCOM, empresa do universo Espírito Santo que atuou como consultora do consórcio alemão. O GSC transferiu 30 milhões de euros para a ESCOM, dinheiro esse que as investigações nunca conseguiram reconstituir integralmente o seu percurso, nem apurar quem foram os destinatários finais de todas as verbas transferidas para a ESCOM. O processo acabaria arquivado.

Na Alemanha, curiosamente, o desfecho foi diferente. Antigos responsáveis da Ferrostaal foram condenados por suborno de decisores em Portugal e na Grécia.  A empresa aceitou ainda pagar uma pesada coima, enquanto por cá ninguém foi condenado por corrupção no processo dos submarinos.

Os Pandur abriram outro capítulo de suspeitas, contrapartidas e relações políticas. A produção em Portugal das viaturas adjudicadas à austríaca Steyr ficou entregue à Fabrequipa, empresa dirigida por Francisco Pita. Pita tinha um longo passado no CDS: militante desde os primeiros anos do partido, integrara estruturas dirigentes e surgia recorrentemente na imprensa como um empresário próximo de Paulo Portas, ainda que mais tarde o próprio viria a negar essa proximidade e a afirmar a pés-juntos que mal conhecia Portas.

A Fabrequipa tornou-se peça central do contrato. Foi encarregue de produzir grande parte das 260 viaturas Pandur adquiridas por Portugal e ficou ligada ao programa de contrapartidas associado ao negócio. Também aqui surgiram suspeitas. As contrapartidas anunciadas sofreram alterações, os valores mudaram e apareceram interrogações sobre a forma como algumas decisões tinham sido tomadas e documentadas. Francisco Pita revelaria mais tarde numa comissão parlamentar de inquérito que, para entrar plenamente no negócio, comprara por alguns milhões de euros uma empresa detentora de direitos associados às contrapartidas.

É neste mesmo período que Manuel Mendes Brandão volta a surgir. Chefiava o gabinete de Paulo Portas quando a proposta da Steyr foi escolhida e continuava ligado à Comissão Permanente de Contrapartidas. O Ministério Público quis ouvi-lo para esclarecer a tramitação do negócio e a intervenção do gabinete ministerial. Nem Brandão nem Paulo Portas foram acusados neste processo.

Um percurso curioso e multifacetado, este o de Manuel Brandão: do gabinete de Paulo Portas e da Comissão Permanente de Contrapartidas, numa época marcada pelos processos dos submarinos e dos Pandur, ao AICEP e, mais tarde, através da Iguarivarius, ao negócio da exportação de pernil de porco para a Venezuela. Hoje, casado com uma italiana, Brandão dedica aparentemente o seu tempo à gestão de dois restaurantes em Lisboa — o Tantazzi e o Fiammetta, este último onde Paulo Portas é presença assídua. Curiosamente, o Fiammetta é o ‘herdeiro’ do  velhinho Mezzaluna, durante anos a fio um dos restaurantes preferidos de José Sócrates quando lhe apetecia uma boa massa — gastronómica, naturalmente.