Angola quer transformar o turismo num dos principais motores da sua economia nas próximas décadas. Essa ambição fica expressa no relatório Tourism Doing Business – Investing in Angola, elaborado pela ONU Turismo em parceria com o Ministério do Turismo, um documento que apresenta ao mundo a nova estratégia angolana para o setor e procura captar investidores internacionais para um mercado que se encontra ainda numa fase inicial de desenvolvimento, mas que dispõe de um potencial considerado extraordinário.

Depois de décadas em que a economia nacional esteve fortemente dependente do petróleo, o executivo liderado por João Lourenço pretende acelerar a diversificação económica, apostando em setores capazes de gerar emprego, riqueza e desenvolvimento territorial. O turismo surge como uma das apostas centrais da estratégia "Angola 2050", que visa posicionar o país entre os principais destinos turísticos africanos nas próximas décadas.

Para o governo angolano, a conjugação entre estabilidade política, reformas económicas, melhoria do ambiente de negócios e investimentos em infraestruturas cria uma oportunidade única para transformar o setor numa verdadeira indústria nacional. O Presidente João Lourenço sublinha no documento que o turismo tem capacidade para gerar riqueza, promover o desenvolvimento equilibrado das diferentes regiões do país e criar oportunidades para os jovens, reduzindo simultaneamente a dependência das receitas petrolíferas.

Um sem-fim de pontos de atração

Os argumentos apresentados são numerosos. Com uma área superior a 1,2 milhões de quilómetros quadrados e cerca de 40 milhões de habitantes, Angola dispõe de mais de 1.650 quilómetros de costa atlântica, vastas áreas de natureza praticamente intocada, parques nacionais, desertos, rios, montanhas e algumas das mais impressionantes paisagens do continente africano. Entre os principais cartões-de-visita destacam-se as Quedas de Kalandula, o Deserto do Namibe, a Serra da Leba, a Fenda da Tundavala, as nascentes do Okavango e o património histórico de Mbanza Kongo, reconhecido como Património Mundial da UNESCO.

O deserto do Namibe, no sul de Angola, é um dos muitos e grandes pontos de atração turístico de um país que aposta num setor com um potencial único

A riqueza cultural constitui outro dos pilares da estratégia. O relatório destaca a força da identidade angolana, da música ao artesanato, passando pela gastronomia, pelo semba e pela kizomba, elementos que podem diferenciar o destino num mercado turístico global cada vez mais competitivo.

Mas o governo reconhece que o potencial, por si só, não basta. Por essa razão, está em curso um vasto programa de investimentos públicos destinado a criar as condições necessárias para o crescimento do setor. Em janeiro deste ano foi autorizado um pacote superior a 500 milhões de dólares para a construção e modernização de estradas, redes energéticas, telecomunicações, abastecimento de água e saneamento em várias zonas de interesse turístico. O objetivo é reduzir os custos de entrada para os investidores privados e acelerar a implementação de novos projetos.

A importância do novo aeroporto

A melhoria da conectividade ocupa igualmente um lugar central. A entrada em funcionamento do novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, concebido para transformar Luanda num importante hub regional, é apontada como uma das infraestruturas mais estratégicas para o crescimento do turismo. A certificação internacional do Aeroporto da Catumbela, em Benguela, e os investimentos associados ao Corredor do Lobito reforçam igualmente a capacidade de mobilidade interna e internacional.

Paralelamente, o executivo criou mecanismos para simplificar procedimentos administrativos e incentivar o investimento privado. Através de programas como o Simplifica Turismo, o Planifica Turismo e o Capacita Turismo, as autoridades procuram reduzir a burocracia, qualificar recursos humanos e criar um ambiente mais favorável à instalação de operadores internacionais. Foram ainda introduzidas isenções de vistos para dezenas de nacionalidades e reforçados os incentivos previstos na Lei do Investimento Privado.

Os resultados começam a surgir. Em 2025, Angola recebeu mais de 223 mil turistas internacionais, um crescimento de cerca de 28% face ao ano anterior e acima dos níveis registados antes da pandemia. A taxa média de ocupação hoteleira atingiu 72,6%, enquanto o número de estabelecimentos turísticos aumentou para 1.428 unidades. Atualmente, o turismo já representa cerca de 30% das exportações de seiços do país.

Luanda e outras cidades angolanas já contam com unidades hoteleiras de primeira linha, que permite a Angola apostar num turismo de eleite

A presença crescente de grupos internacionais como Marriott, Hilton, InterContinental Hotels Group (IHG) e outros operadores é vista como um sinal de confiança no mercado angolano. A ONU Turismo considera mesmo que Angola reúne algumas das características mais promissoras entre os destinos emergentes africanos, conjugando natureza, património, cultura, localização geográfica estratégica e um quadro político cada vez mais orientado para a captação de investimento.

A mensagem que Luanda procura transmitir ao mundo é inequívoca: Angola quer deixar de ser conhecida apenas pelo petróleo e pelos recursos minerais. O objetivo é afirmar-se como um destino turístico de referência em África, capaz de atrair visitantes, investimento e talento, transformando o turismo numa das principais alavancas do desenvolvimento económico e social do país nas próximas décadas.