Francisco Rodrigues dos Santos, antigo presidente do CDS-PP, decidiu desfiliar-se do partido ao fim de quase 20 anos de militância. A decisão é comunicada numa carta dirigida ao atual líder centrista, Nuno Melo, datada de ontem, dia 3, em que o antigo dirigente acusa o partido de ter acompanhado a deslocação do debate político para a direita.

"Deixo de ser militante do CDS. Continuo a ser democrata-cristão", escreve no final do documento, assinado em Lisboa.

Na carta, o ex-líder considera que o CDS percorreu "o caminho inverso" do que procurou seguir durante a sua presidência. O centro-direita moderado, social e humanista que diz ter defendido foi, segundo o próprio, perdendo espaço para uma orientação que não se sente capaz de subscrever.

Rodrigues dos Santos critica o peso crescente de discursos identitários, de uma retórica radicalizada e de correntes ultraconservadoras e libertárias, que associa a uma "inquietante insensibilidade social". Aponta ainda uma ação política que se habituou a "classificar as pessoas antes de as compreender" e que trata o Estado social europeu como um obstáculo, quando o considera uma das maiores conquistas da civilização.

O antigo presidente do CDS afirma que hoje é mais acertado definir-se como centrista. Sem abandonar a defesa da liberdade económica, e considerando excessiva a carga fiscal sobre famílias e empresas, diz não lhe bastar uma economia que cresça sem melhorar a vida de quem trabalha e continua pobre ou de quem não consegue pagar uma casa.

Rejeita também qualquer contradição no seu percurso. Explica que, perante governos de esquerda, defendeu os valores da direita democrática para aproximar o país do centro, e que agora, perante o que considera uma deslocação excessiva para a direita, sente necessidade de olhar com mais cuidado para valores associados ao centro-esquerda democrático.

Sobre a saída, afirma que o partido fez legitimamente as suas escolhas e que ele fez as suas, e pede respeito pelas razões que o levam a seguir outro caminho. Garante sair com gratidão e com a estima de quem permanece no CDS.

Rodrigues dos Santos filiou-se na Juventude Popular em 2007 e no CDS quatro anos depois, tendo presidido às duas organizações. Demitiu-se da liderança do partido depois das legislativas de janeiro de 2022, em que o CDS ficou pela primeira vez fora do Parlamento, e foi sucedido por Nuno Melo.