A ambição, em junho de 2024, era desmedida. O canal Conta Lá era apresentado como um negócio das arábias avaliado em 30 milhões de euros. Segundo o dossier com que Sérgio Figueiredo e o seu sócio Maurício Ribeiro tentaram seduzir possíveis investidores, surgiam grandes grupos económicos entre os potenciais acionistas, antigas governantes, Assunção Cristas e Rita Marques, surgiam como administradoras e as projeções financeiras apontavam para receitas anuais de 41,5 milhões de euros em 2030.

Mas esta montra, feita com nomes de peso e respeitáveis grupos empresariais, era enganadora. A Visabeira garante que recusou investir e denuncia a utilização abusiva do seu nome. O Grupo Barraqueiro, esse, nem sequer tem memória de alguma proposta de negócio. E várias das personalidades apresentadas como administradores asseguram que nunca aceitaram os cargos que lhes eram atribuídos. A poderosa estrutura empresarial anunciada por Ribeiro e Figueiredo era, em boa parte, uma construção de papel, feita de grandes nomes que não estavam comprometidos com o projeto. Uma montra de luxo, tão falsa como Judas, para dar ao Conta Lá uma credibilidade que, afinal, valia tanto como uma nota falsa.

Dois anos depois, com dívidas superiores a cinco milhões de euros, salários por pagar e mais de 50 trabalhadores a prepararem um pedido de insolvência, o sonho dourado transformou-se num pesadelo.

Um passo maior que a perna

Os promotores do canal, Maurício Ribeiro e Sérgio Figueiredo, quiseram dar um passo maior — muito maior! — do que a perna. Não convenceram os investidores que procuraram atrair. Grandes grupos empresariais portugueses não se deixaram convencer. O vasto lastro de golpes, dívidas e falências de Maurício Ribeiro em nada contribuía para a credibilidade do projeto. Várias das personalidades apresentadas como futuros administradores garantem agora ao 24Horas que nunca aceitaram os cargos que lhes eram atribuídos e consideram abusiva a utilização dos seus nomes.

O pesadelo financeiro não é, aliás, uma novidade no percurso empresarial de Maurício Ribeiro, um dos principais promotores do Conta Lá. A sua produtora Just Up, que também utilizou a designação Just Cine, esteve envolvida numa atribulada produção para a RTP e acabou declarada insolvente em 2018, num processo encerrado em 2023 por insuficiência da massa insolvente; a Mau Mau Mia, outra das produtoras a que esteve ligado, acumulava já, em 2025, pelo menos 12 processos de execução de dívidas, num valor próximo dos 600 mil euros, conforme revelou o 24Horas. O Conta Lá arrisca-se, assim, a acrescentar mais um capítulo a um historial de projetos empresariais marcado por fugas, insolvência e dívidas.

O 24Horas teve acesso a um documento de apresentação a investidores, datado de junho de 2024, que permite reconstituir as ambições de Maurício Ribeiro e de Sérgio Figueiredo, os rostos do projeto.

O documento de 21 páginas, redigido em inglês, apresentava um negócio de televisão, conteúdos digitais e produção audiovisual que pretendia conquistar o mercado português, apoiado numa estrutura empresarial em que surgiam alguns dos mais conhecidos grupos económicos nacionais. As projeções financeiras apontavam para receitas anuais de 41,5 milhões de euros em 2030.

Fernando Nunes (Visabeira), Dionisio Pestana (Grupo Pestana), Humberto Pedrosa (Barraqueiro) e Sérgio Monteiro (Horizon): nomes fortes da ‘nata’ financeira portuguesa foram usados abusivamente como ‘isco’ por Maurício Ribeiro e Sérgio Figuieredo para tentar aliciar investidores

Num dos cenários apresentados, a distribuição do capital parecia desenhada ao pormenor. A Mau Mau Mia, empresa ligada a Maurício Ribeiro, ficaria com 53,3 por cento. Um suposto investidor israelita entraria com quatro milhões de euros, garantindo 13,3 porcento. O Grupo Barraqueiro e o Grupo Visabeira surgiam com participações de 8,3 por cento cada, correspondentes a investimentos previstos de 2,5 milhões de euros. Outros dois blocos acionistas, de idêntico valor, destinavam-se a consórcios ligados ao turismo e ao setor agrícola. No primeiro aparecia, nada mais, nada menos, que o nome do Grupo Pestana.

Os promotores procuraram também atrair o fundo Horizon Equity Partners, ao qual propuseram um investimento de quatro milhões de euros, correspondente a 13,3 por cento do capital do Conta Lá. Houve uma reunião, mas o negócio não passou daí. Sérgio Monteiro, ex-secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, fundador e CEO da sociedade, diz ao 24Horas que o encontro, realizado a pedido dos promotores, não teve seguimento porque “o perfil de risco do investimento não era compatível com os investimentos que apoiamos”.

Mas uma coisa era o projeto megalómano que Sérgio Figueiredo e Maurício Ribeiro apresentavam aos potenciais investidores. Outra, bem diferente, era a disposição dos convidados para entrarem no negócio.

A estrutura acionista anunciada nunca se concretizou. Na sociedade constituída para explorar o Conta Lá, Maurício Ribeiro viria a controlar a maioria do capital através da Baú d’Iniciativas, enquanto Sérgio Figueiredo participava por intermédio da Plataforma Coerente, empresa de comunicação que criou com a namorada, Margarida Pinto Correia, e na qual detém 70 por cento do capital.

Conta Lá abusou

Fernando Nunes, fundador e presidente do Conselho Geral do Grupo Visabeira, não mede as palavras: “Fomos sondados, mas recusámos participar no projeto. Reiteramos que nunca fomos acionistas. Dessa forma a utilização do nome do Grupo Visabeira no citado documento é completamente abusiva», afirmou ao 24Horas.

O grupo rejeita, assim, qualquer participação no investimento de 2,5 milhões de euros que lhe era atribuído na apresentação. Isso não impediu, porém, uma colaboração comercial posterior com o canal, como esclarece Fernando Nunes: “O Grupo Visabeira, através da sua participada, Empreendimentos Turísticos Montebelo, disponibilizou espaços, como contrapartida de espaços publicitários em antena, nos programas dedicados aos debates nas eleições autárquicas de 2025”.

Com o Grupo Barraqueiro, a história é bem diferente. Uma fonte da holding presidida por Humberto Pedrosa, contactada pelo 24Horas, afirma que não há memória de alguma vez o Conta Lá ter apresentado uma proposta de negócio. Apesar disso, no documento destinado aos investidores, o Barraqueiro surgia com 8,3 por cento do capital, correspondentes a um investimento de 2,5 milhões de euros. Uma participação milionária que, pelos vistos, só existiu no papel...

Outro dos nomes que figuravam no documento era o do jurista António Tavares, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, atualmente presidente da Mesa da Assembleia Geral do FC Porto, e uma figura grada da sociedade portuense, apresentado como representante de um investidor israelita que, segundo a estrutura acionista anunciada, entraria com quatro milhões de euros.

O documento indicava-o, com fotografia, entre os futuros administradores do canal. Contactado pelo 24Horas, António Tavares confirma que foi abordado diretamente pelos promotores, mas esclarece que o investimento nunca se concretizou: “Fui contactado pelo Sérgio Figueiredo e pelo seu sócio Maurício Ribeiro. Nunca integrei nenhuma administração pois o investidor declinou o convite depois de conhecer o projeto”. E António Tavares não deixa margem para dúvidas: “Considero abusivo e exagerado constar de um órgão que desconheço em absoluto a sua existência e composição. Não tenho nenhuma relação pessoal ou institucional com o canal Conta Lá”.

António Mexia, Assunção Cristas, António Tavares, Alexandre Matos e Rita Marques foram abusivamente apresentados como administradores de um projeto para o qual não foram tidos nem achados

Outra página do documento, intitulada ‘Board of Directors’, mostrava quem os promotores pretendiam colocar na administração do Conta Lá A presidência estava reservada a um gestor português não identificado, descrito como alguém com quase 15 anos de experiência na liderança de uma importante empresa do setor energético nacional. No lugar da fotografia, uma silhueta.

A descrição encaixava como luva de pelica no percurso de António Mexia, que presidiu à comissão executiva da EDP entre 2006 e 2020, com quem Sérgio Figuieredo trabalhou de perto. Ao fim de 14 anos à frente da elétrica portuguesa, Mexia foi suspenso do exercício de funções, por decisão do juiz Carlos Alexandre, no âmbito de um processo por corrupção.

O 24Horas tentou contatar Mexia, mas as divesas diligências nesse sentido não tiveram êxito. No entanto, o antigo ‘patrão’ da EDP já confidenciou a pessoas próximas que nunca teve nada a ver com o projeto liderado pelo seu antigo ‘homem de confiança’, ainda que há quem garanta tê-lo visto em reuniões no âmbito do Conta Lá.

Entre os nomes apresentados para integrar a administração figuravam Rita Marques, antiga secretária de Estado do Turismo, como representante de um consórcio turístico, e Assunção Cristas, antiga ministra da Agricultura e do Mar, associada a um consórcio ligado ao setor agroindustrial. Assunção Cristas, em declarações ao 24 Horas, foi peremptória e afasta qualquer ligação ao negócio: “Não tenho nenhuma relação nem com o dito canal nem com nenhuma empresa do setor agroalimentar”.

No dossier dirigido a hipotéticos investidores do Conta Lá, a dupla formada por Maurício Ribeiro e Sérgio Figuieredo prometiam mundos e fundos, ou seja resultados mais do que promissores

Também Alexandre Matos, um destacado quadro da Altice Portugal, apresentado no documento como consultor financeiro, garante que nunca aceitou o lugar que lhe era atribuído: “Fui convidado, mas recusei integrar a administração do Conta Lá”. E não esconde a indignação por ver o seu nome e fotografia entre os futuros administradores: “É um abuso”.

Os investidores convidados recusaram embarcar na aventura do Conta Lá. Talvez adivinhavam o naufrágio. O certo é que preferiram ficar em terra. A bordo ficaram Maurício Ribeiro, com a maioria do capital e um longo e polémico ‘currículo’ empresarial, onde somou golpes, dívidas e falências, e Sérgio Figueiredo que, entretanto, abandonou sorrateiramente o barco, após umas retemperadoras férias no Nepal.

Resultado de tudo isto?. O projeto que os promotores avaliavam em 30 milhões de euros acumula agora dívidas superiores a cinco milhões, salários em atraso e mais de meia centena de trabalhadores a preparar um pedido de insolvência.