Os Estados Unidos reconheceram publicamente, pela primeira vez, que já têm armas colocadas em órbita terrestre. A revelação foi feita por Troy Meink, de 60 anos, secretário da Força Aérea, e expõe uma nova dimensão da disputa militar entre Washington, China e Rússia pelo domínio do espaço.

Durante a conferência Air, Space & Cyber, em National Harbor, Maryland, Meink confirmou que a Space Force dispõe de 'on-orbit space control weapons', sistemas destinados a proteger as forças norte-americanas de possíveis ataques ou interferências por parte de adversários.

Apesar da confirmação, o responsável não revelou quantas armas estão atualmente no espaço, quando foram lançadas ou que capacidades possuem. Questionado sobre o assunto, recusou também esclarecer se estes sistemas já foram testados.

A expressão utilizada por Meink não permite determinar concretamente de que tipo de armamento se trata. Entre as possibilidades apontadas por especialistas estão sistemas não cinéticos, como tecnologias capazes de interferir com satélites adversários sem os destruir fisicamente e, dessa forma, evitar a criação de grandes quantidades de lixo espacial.

A administração norte-americana apresenta estas capacidades sobretudo como um instrumento de dissuasão. Meink defende que o país precisa de preservar a superioridade no espaço, numa altura em que os satélites desempenham um papel cada vez mais importante nas operações militares e em áreas essenciais da vida civil.

Segundo o secretário, divulgar demasiados detalhes sobre os sistemas poderia, aliás, diminuir a sua utilidade estratégica ao permitir que potenciais adversários conhecessem as capacidades norte-americanas.

Corrida militar no espaço

A admissão surge depois de décadas de desenvolvimento de tecnologias destinadas a proteger ou neutralizar satélites. Os Estados Unidos, a Rússia e a China têm realizado testes de diferentes sistemas de combate espacial, incluindo tecnologias capazes de interferir, bloquear ou destruir equipamentos em órbita.

Washington tem procurado nos últimos anos desenvolver soluções que reduzam o risco de criar detritos, enquanto Pequim e Moscovo continuam também a reforçar as respetivas capacidades de “counter-space”.

O reconhecimento feito agora por Meink representa, por isso, uma mudança importante no discurso oficial norte-americano. Até aqui, Washington tinha falado sobretudo de capacidades de defesa e de resposta a ameaças no espaço, sem admitir de forma tão direta a existência de armamento operacional em órbita.

A preocupação com a China e a Rússia está no centro desta estratégia. Segundo responsáveis norte-americanos, os dois países têm desenvolvido sistemas destinados a atingir ou comprometer satélites dos EUA, considerados essenciais para comunicações, navegação, recolha de informação e operações militares.

A revelação ocorre também enquanto Washington avança com o projeto Golden Dome, um ambicioso sistema de defesa antimíssil que poderá incluir componentes instalados no espaço, entre eles intercetores destinados a reforçar a proteção do território norte-americano.

A utilização de armas no espaço coloca ainda questões jurídicas. O Tratado do Espaço Sideral, assinado em 1967, proíbe a colocação em órbita de armas nucleares e outras armas de destruição maciça, mas não estabelece uma proibição geral de armamento convencional no espaço.