Luísa Proença, antiga diretora nacional-adjunta da Polícia Judiciária (PJ), garantiu que não foi informada da transferência para Barcelos do atrelado apreendido numa operação de combate ao tráfico de droga. O equipamento acabou por ser localizado nas instalações da Construbarcelos, empresa que realizou trabalhos para a PJ durante a liderança de Luís Neves e, mais recentemente, obras numa propriedade ligada ao atual ministro da Administração Interna.

"Não tive qualquer conhecimento da ida para Barcelos de um atrelado apreendido no âmbito de um processo", afirmou Luísa Proença à CNN Portugal, acrescentando que só tomou conhecimento da situação através da televisão.

A declaração ganha relevância pelo facto de a antiga responsável ter tutelado a Direção de Serviços de Gestão Financeira e Patrimonial da PJ, estrutura da qual dependia a gestão e a guarda dos bens apreendidos. Luísa Proença desempenhou funções como adjunta durante os oito anos em que Luís Neves dirigiu a polícia.

O atrelado foi transportado do Seixal para o norte do País, onde viria a ser encontrado junto à empresa do empreiteiro João Carvalho. Segundo as notícias já divulgadas, a movimentação terá sido autorizada por Luís Neves quando este ainda era diretor nacional da PJ.

O Ministério Público abriu um inquérito para esclarecer as circunstâncias em que o bem apreendido saiu da esfera da polícia e foi parar às instalações de uma empresa privada. O processo está a ser conduzido diretamente pelo Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa e, para já, não foi delegado na própria PJ. As suspeitas noticiadas incluem os eventuais crimes de abuso de poder e descaminho.

O atrelado tinha sido apreendido em dezembro de 2024, durante a Operação Pacoba, investigação que permitiu desmantelar um laboratório de produção de droga. No interior estavam dezenas de bidões com substâncias químicas utilizadas no fabrico de estupefacientes. Terá sido invocado um risco de explosão, agravado pelas temperaturas elevadas, para justificar a retirada urgente do equipamento das instalações da Marinha.

A polémica em torno do atual ministro começou depois de ser noticiado que a Construbarcelos fora escolhida para realizar obras num imóvel em São Teotónio, no concelho de Odemira, ligado à família de Luís Neves. A mesma construtora recebeu vários contratos da PJ enquanto o governante dirigia aquela polícia. Dados posteriormente divulgados apontam para 17 contratos, entre 2019 e 2025, num valor global de cerca de 2,23 milhões de euros.

Luís Neves, que tomou posse como ministro da Administração Interna em fevereiro de 2026, afirmou estar a reunir documentos e informações para responder ao caso. O governante prometeu prestar esclarecimentos sobre os vários pontos levantados publicamente.