As farmácias portuguesas venderam 132 milhões de euros em medicamentos para a obesidade no primeiro semestre de 2026, praticamente o mesmo que em todo o ano de 2025. Os dados do Infarmed apontam para uma média de 731 mil euros por dia, o valor mais elevado de sempre.

Entre janeiro e junho foram dispensadas 528.872 embalagens destes fármacos, o que corresponde a 2922 por dia. Desde 2021, o número de unidades vendidas multiplicou-se por mais de oito.

O motor deste crescimento é a tirzepatida, comercializada como Mounjaro, que já representa cerca de três em cada quatro agonistas do recetor de GLP-1 vendidos no país. Chegou ao mercado português no final de 2024, com perto de 10 mil embalagens nos dois primeiros meses, e saltou para 434 mil em 2025. É também a opção mais cara: custa em média 283 euros por embalagem, contra 174 euros do Wegovy (semaglutido). O Ozempic fica fora destas contas, por estar aprovado apenas para a diabetes tipo 2.

O panorama vai mudar com a entrada em vigor de uma comparticipação de 15%, limitada a receitas passadas por especialistas do SNS em endocrinologia, medicina interna ou pediatria.

O aumento das vendas tem levantado dúvidas sobre o uso indevido e a sobreprescrição. A Ordem dos Médicos garante que não há dados que indiquem um problema dessa natureza e classifica como residuais os casos de prescrição inadequada, embora reconheça que não existem mecanismos para os travar e que cabe a cada médico cumprir as boas práticas. A Ordem diz não ter recebido queixas e considera que o volume de vendas é compatível com o número de doentes que precisam destes fármacos.

A fiscalização também se intensificou. Desde o início de 2025, o Infarmed inspecionou 92 farmácias, 12 distribuidores por grosso e três empresas titulares de autorizações de introdução no mercado. Daí resultaram 19 participações ao Ministério Público no ano passado e há mais 14 em análise. Metade das farmácias inspecionadas foi alvo de processos de contraordenação, na maioria por dispensa de quantidades acima do permitido. Foi ainda suspensa a autorização de um distribuidor por falhas nas boas práticas.

Lá fora, o mercado segue a mesma trajetória. A Goldman Sachs estima que as vendas mundiais passem de cerca de 46 mil milhões de euros este ano para perto de 100 mil milhões em 2030, com a Eli Lilly e a Novo Nordisk a concentrar 82% das receitas. O fim das patentes do semaglutido, que já caíram este ano na China, Índia, Canadá e Brasil e expiram nos EUA e na Europa em 2031 e 2032, deverá abrandar o ritmo e pressionar os preços.