Perto de 30% dos portugueses dizem não ter recebido cuidados de saúde no prazo que consideravam adequado, por causa de listas de espera ou de dificuldades em marcar consultas. É a conclusão mais forte de um estudo promovido pela Ordem dos Médicos, que mostra um país dividido no acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) e indica que os doentes que mais precisam são muitas vezes os que têm um acompanhamento menos estável.
Das dificuldades de acesso analisadas no inquérito, a demora foi a mais referida, com 29,9% das respostas. O dinheiro também pesa: 6,7% dos inquiridos deixaram de ir a consultas, exames ou tratamentos por razões financeiras e 4,4% não compraram medicamentos que lhes tinham sido receitados.
A avaliação do SNS de proximidade divide os portugueses quase ao meio. Para 40%, o acesso aos serviços públicos da zona onde vivem é fácil ou muito fácil. Para 36,3%, é difícil ou muito difícil. Os autores sublinham que, com respostas tão diferentes, a média nacional esconde realidades distintas. O SNS continua a ser o eixo de uma parte decisiva dos cuidados e convive com percursos pelo setor privado. Ainda assim, o estudo não permite dizer que um setor esteja a substituir o outro, nem comparar o desempenho ou os tempos de espera dos dois.
O estudo arruma a população em três perfis. O maior é o dos vulneráveis, com 48%: são as pessoas com pior saúde e mais doenças, as que mais recorrem aos serviços por necessidade, mas que têm baixa continuidade de cuidados. Seguem-se os episódicos, com 34%, que têm melhor saúde percebida e usam pouco os serviços, com acompanhamento irregular e pouca prevenção. Os integrados, que são 18%, juntam bom acesso, consultas regulares, seguimento consistente e melhores hábitos de prevenção.
O caso do grupo mais vulnerável é a contradição que os investigadores destacam. Ir mais vezes aos serviços não quer dizer ser melhor acompanhado. Por isso, o debate deixa de ser sobre o número de contactos com o sistema e passa a ser sobre a qualidade e a estabilidade do seguimento.
O inquérito mediu também o peso dos cuidadores informais: 14,7% dos inquiridos prestam cuidados regulares a alguém com problemas de saúde prolongados. Há ainda um consenso alargado, de 83,9%, sobre a necessidade de médicos, veterinários, especialistas ambientais e decisores políticos trabalharem em conjunto para prevenir surtos.
Para quem decide, o documento deixa três perguntas. Que dificuldades devem ser resolvidas primeiro, e quais delas dependem de organização ou de mudanças estruturais? Quem fica responsável por executar e monitorizar as medidas e por articular os serviços de saúde, o setor social, as autarquias e as famílias? E que indicadores vão mostrar se as coisas melhoraram, sobretudo para quem mais precisa?
O estudo chama-se “Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, Acesso aos Cuidados e Uma Só Saúde” e foi feito pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, através do seu Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho em Saúde.

















