O presidente do governo espanhol está sob uma vaga de críticas depois de ter divulgado, no sábado, dia 1, uma lista de 31 músicas para o verão, horas depois de ter estado em Ceuta a falar da maior entrada irregular de migrantes alguma vez registada em território espanhol. A crise vai dominar esta semana uma reunião extraordinária dos ministros do Interior da União Europeia, convocada para coordenar uma resposta comum.

O vídeo, gravado num sofá branco da Moncloa e publicado no Instagram e no TikTok sob o título 'A banda sonora do meu verão', mostra Sánchez de telemóvel na mão a apresentar uma seleção que descreve como bastante ecléctica. Destaca três temas: 'El Baifo', de Quevedo, 'SS26', de Charli XCX, e 'Tantas Cosas', de Melani. A lista, disponível no Spotify, junta Madonna, Rolling Stones, Deep Purple e Paul McCartney a nomes espanhóis, como Rodrigo Cuevas, Mala Rodríguez, Baiuca ou Carlos Ares. O chefe do Governo espanhol termina a desejar um feliz verão aos seus seguidores.

Desde a 'invasão' da semana passada, as equipas de salvamento recuperaram 72 corpos e as autoridades não excluem encontrar mais vítimas. Entre 50 mil e 60 mil pessoas terão tentado atravessar a fronteira a partir de Marrocos, na quinta-feira, por terra e por mar, ultrapassando os meios das forças de segurança; a maioria já tinha regressado a Marrocos na sexta-feira à tarde. A cidade autónoma continua a gerir as consequências da emergência, com o Exército destacado em reforço da Guardia Civil.

O episódio abriu também uma crise diplomática dentro da própria União Europeia. A Itália impôs controlos fronteiriços temporários às viagens a partir de Espanha e o ministro do Interior francês, Laurent Núñez, ordenou controlos adicionais na fronteira. Numa carta divulgada pela imprensa europeia, Sánchez condenou aquilo que classificou como uma reacção egoísta, polarizadora e ilegal de outros Estados-membros.

Horas antes de publicar o vídeo musical, o próprio Sánchez tinha estado em Ceuta e classificado o sucedido como “um ataque à integridade de Espanha”, responsabilizando as redes de tráfico de pessoas. É esse contraste entre o tom institucional e o registo descontraído da publicação que está no centro das reacções.

A eurodeputada espanhola do Partido Popular Dolors Montserrat foi das vozes mais duras, dizendo sentir “vergonha como espanhola” por um chefe de Governo que dedica tempo a recomendações musicais no meio da pior crise migratória da história do país, e falando em insensibilidade e decadência moral.

Não é a primeira vez que a conta oficial de Sánchez publica conteúdos ligeiros em momentos de tensão política ou social. Fontes citadas pela imprensa espanhola apontam para um vídeo já programado com antecedência, cuja publicação acabou por coincidir com o pico da polémica.

Créditos: @sanchezcastejon/Instagram