Nuno Rebelo de Sousa começou por meter a ‘cunha’ ao pai, então Presidente da República. Segundo a acusação do Ministério Público, pediu a Marcelo Rebelo de Sousa que ajudasse a desbloquear o tratamento das gémeas luso-brasileiras no Hospital de Santa Maria. Depois, movimentou-se: procurou diretamente António Lacerda Sales, então secretário de Estado da Saúde, pediu-lhe uma reunião e continuou a acompanhar pessoalmente o caso até o tratamento ser autorizado.

Dois anos depois de ter dado essa ajuda decisiva para que as gémeas fossem tratadas em Portugal, a Câmara de Comércio de São Paulo, à qual Nuno Rebelo de Sousa presidia, distinguiu como ‘Personalidade do Ano’ (na foto) a José Manuel Dias da Fonseca, CEO da MDS, a corretora de seguros que pertenceu à Sonae e que viria depois a ser adquirida pelo grupo britânico The Ardonagh.

E é aqui que a homenagem deixa de ser apenas uma fotografia de circunstância, porque o homem distinguido presidia à corretora para a qual trabalhava Juliana Vilela Drumond, mulher de Nuno, uma empresa que mantinha relações comerciais com a AMIL, a seguradora das gémeas.

A Amil é um dos maiores grupos privados de saúde do Brasil e uma das maiores operadoras de seguros de saúde do país, faturando anualmente mais de 5,5 mil milhões de euros

A própria MDS confirmou que Juliana trabalhava para a corretora através de um contrato de prestação de serviços: era consultora e angariava seguros para a empresa. Fontes do meio empresarial de São Paulo, contactadas pelo 24 Horas, apontam, no entanto, para uma relação mais estreita com a MDS. Segundo essas fontes, Juliana trabalharia exclusivamente com a corretora e a sua remuneração dependeria dos negócios que conseguisse angariar. Mais: Nuno Rebelo de Sousa seria também conhecido por encaminhar contactos e potenciais clientes para a MDS através da mulher. Há mesmo relatos de um momento em que, perante terceiros, apresentou Juliana como “funcionária da MDS” — uma descrição bastante mais próxima de uma relação regular com a corretora do que da figura de agente independente.

A proximidade do casal à MDS ganha toda a importância quando se sabe que a corretora mantinha uma parceria comercial com a AMIL, precisamente a seguradora que assegurava a cobertura de saúde das gémeas no Brasil. A relação entre as duas empresas incluía a captação de clientes e colocava a MDS entre os parceiros comerciais de uma seguradora que poderá ter poupado vários milhões de euros graças à intervenção de Nuno Rebelo de Sousa para que o tratamento fosse feito em Portugal à custa do Serviço Nacional de Saúde.

O poder da AMIL em Portugal

Quais foram, afinal, as reais intenções de Nuno Rebelo de Sousa: quis apenas ajudar, de forma desinteressada, uma família que lhe pediu auxílio para conseguir o tratamento das gémeas em Portugal – ou pretendeu livrar a AMIL do pagamento de vários milhões de euros em troca de uma ‘compensação’, chamemos-lhe assim? A dúvida nunca foi verdadeiramente investigada nem pelo Ministério Público nem pela Comissão Parlamentar de Inquérito. E o mistério, como é sabido, alimenta todas as suspeitas.

Antes de as gémeas chegarem ao Hospital de Santa Maria, Nuno Rebelo de Sousa tentou conseguir-lhes uma consulta no Hospital Lusíadas, então ligado ao mesmo universo empresarial da AMIL. A tentativa ficou provada na Comissão Parlamentar de Inquérito. Só depois de esse caminho não ter resolvido o problema é que o caso avançou para o Serviço Nacional de Saúde, onde o tratamento acabaria por ser autorizado e pago pelo Estado português.

A Abreu Advogados, através de uma equipa que incluiu Luís Marques Mendes, foi quem assessorou juridicamente a entrada do poderoso grupo brasileiro AMIL no mercado português

Na entrada da AMIL no setor dos hospitais privados em Portugal surge um nome conhecido: Luís Marques Mendes. Em 2013, o grupo brasileiro concluiu a compra da HPP — Hospitais Privados de Portugal à Caixa Seguros e Saúde, passando a controlar uma rede que incluía o Hospital dos Lusíadas. A operação foi juridicamente assessorada pela Abreu Advogados, sociedade à qual Marques Mendes estava ligado como consultor desde 2012. O antigo líder do PSD e ex-candidato à Presidência da República, segundo informação oficial, integrou a equipa jurídica que trabalhou para a AMIL na aquisição da HPP.

A presença da AMIL em Portugal, porém, estava longe de se limitar ao Hospital dos Lusíadas. A compra da HPP deu ao grupo brasileiro o controlo de uma rede que incluía os hospitais da Boavista, Misericórdia de Sangalhos, Lusíadas, Santa Maria de Faro, Albufeira e São Gonçalo de Lagos. A operação colocou ainda a AMIL na gestão do Hospital de Cascais, então explorado em regime de parceria público-privada. Nos anos seguintes, já sob a marca Lusíadas Saúde, o grupo continuaria a expandir-se no nosso país.

Coincidência sobre coincidência...

A tentativa falhada de Nuno Rebelo de Sousa de levar inicialmente as gémeas para o Hospital Lusíadas ganha, por isso, particular importância. A unidade fazia parte de um grupo controlado pela AMIL, a mesma seguradora que assegurava a cobertura de saúde das crianças no Brasil. Só depois de essa via não ter permitido chegar ao tratamento pretendido é que o processo avançou para o Hospital de Santa Maria e, portanto, para o Serviço Nacional de Saúde.

A ligação entre a MDS e o caso das gémeas mete-se pelos olhos dentro. Juliana Vilela Drumond trabalhava para a corretora. Foi aí que conheceu Daniela Martins — e foi através de Juliana que a mãe das crianças chegou a Nuno Rebelo de Sousa. A própria MDS, por sua vez, era parceira comercial da AMIL — a seguradora das gémeas no Brasil e o grupo que, em Portugal, controlava o Hospital Lusíadas, precisamente a unidade para onde Nuno tentou primeiro encaminhar as gémeas.

A relação de Nuno Rebelo de Sousa com a MDS também não se esgotava no trabalho da mulher. Fontes do meio empresarial de São Paulo, contactadas pelo 24 Horas, garantem que o filho de Marcelo encaminhava contactos e potenciais clientes para a corretora através de Juliana. É neste quadro de proximidade que ganha relevância a homenagem feita, dois anos depois, a José Manuel Dias da Fonseca, CEO da MDS, pela Câmara de Comércio de São Paulo presidida por Nuno.

A própria revista da Câmara de Comércio, a ‘Câmara Portuguesa em Revista’, ajuda a avaliar essa proximidade. Na reportagem sobre o jantar dos 109 anos da instituição, Juliana surge entre os presentes e identificada como ligada à MDS. Não se tratava, portanto, de uma relação distante ou meramente institucional: a mulher de Nuno trabalhava para a corretora, Nuno encaminhava-lhe contactos e clientes e o homem que dirigia a empresa acabava distinguido pela instituição a que o próprio Nuno Rebelo de Sousa presidia.

A própria revista da Câmara de Comércio, a que o filho de Marcelo presidia, apresentava a sua mulher como ligada à corretora MDS

A MDS, afinal, está longe de ser uma figurante nesta história. Juliana trabalhava para a corretora, Nuno encaminhava-lhe contactos e potenciais clientes, a empresa mantinha relações comerciais com a AMIL e, dois anos depois do tratamento das gémeas, o homem que a dirigia era escolhido “Personalidade do Ano” pela Câmara de Comércio de São Paulo presidida pelo próprio Nuno Rebelo de Sousa. Para uma empresa aparentemente periférica ao caso, é uma presença verdadeiramente assídua. Se isto é a periferia, fica difícil perceber onde começa o centro.

A acusação do Ministério Público ajuda, aliás, a perceber até onde foi Nuno Rebelo de Sousa para conseguir o tratamento. O filho do então Presidente da República é acusado, juntamente com António Lacerda Sales, ao tempo secretário de Estado da Saúde, e Luís Pinheiro, na altura diretor clínico do Hospital de Santa Maria, de prevaricação, em concurso aparente com abuso de poder.

Segundo o Ministério Público, Nuno não se limitou à ‘cunha’ ao pai: procurou diretamente o então secretário de Estado da Saúde, reuniu-se com ele, mexeu-se e continuou a acompanhar o processo até o tratamento acabar por ser autorizado.

A acusação explica, portanto, com bastante detalhe como o filho do então Presidente da República abriu, de gazua em punho, portas que estavam fechadas ao comum dos portugueses. O que não explica é porquê — ou, pelo menos, não investiga até ao fim se por detrás da vontade de ajudar existia também um interesse económico.

Está ainda por apurar quanto teria a AMIL de pagar pelo tratamento no Brasil, quanto poderá ter poupado quando a conta passou para o SNS português e se houve contactos entre a seguradora, a MDS e o círculo de Nuno Rebelo de Sousa.

O Ministério Público seguiu a pista da cunha. A pista do dinheiro ficou pelo caminho.