Em janeiro de 2024, em plena crise que se vivia na Global Media, Domingos Andrade foi ao Parlamento denunciar a “destruição reputacional” das marcas e redações daquele grupo de media. Dois anos e meio depois, é a Notícias Ilimitadas, o grupo empresarial que criou e onde exerce funções de liderança que está confrontado com uma pergunta particularmente sensível: de onde veio o dinheiro que permitiu financiar a operação que colocou JN, TSF e ‘O Jogo’ nas mãos dos atuais proprietários?
Uma investigação publicada esta quarta-feira pelo jornal Página Um coloca precisamente o foco no que classifica como “financiamento obscuro” do universo da Notícias Ilimitadas e da Verbos Imaculados.
As dúvidas não nasceram agora. Em novembro de 2025, o próprio Página Um revelara números que deixavam uma interrogação por explicar. A Notícias Ilimitadas terminara 2024 com um capital social de apenas 71.430 euros, mas apresentava capitais próprios próximos de 4,3 milhões de euros. Segundo a publicação, os elementos então disponíveis não permitiam perceber claramente de onde provinham esses milhões nem determinar qual tinha sido o esforço financeiro de cada acionista. Ao mesmo tempo, a empresa registava prejuízos líquidos de cerca de 1,2 milhões, resultado operacional negativo de 1,4 milhões e um passivo que atingia 12,6 milhões de euros.
Um sem-fim de alterações
A questão tornou-se ainda mais relevante depois das alterações societárias. Em março deste ano, a Verbos Imaculados passou a controlar 100% da Notícias Ilimitadas e da Rádio Notícias, deixando a Global Notícias de participar diretamente nas sociedades proprietárias do JN, O Jogo e TSF, sendo que a estrutura acionista da Verbos Imaculados conheceu, entretanto, diferentes configurações, tendo Domingos de Andrade mantido uma participação direta e funções de administração.
Mas a própria transferência de controlo acabou por despertar a atenção do regulador. A ERC abriu um processo de contraordenação relacionado com uma alteração de domínio da Rádio Notícias que, segundo o regulador, deveria ter sido previamente autorizada. A ERC concluiu que José Manuel Rogeira de Jesus passou a exercer indiretamente uma posição maioritária, através das suas participações societárias.
Ao mesmo tempo, surgiram sinais de dificuldades de tesouraria. Em agosto, a Notícias Ilimitadas admitiu ter cerca de 120 mil euros de rendas em atraso, depois de a dívida ter ultrapassado os 150 mil. A administração contrapôs que possuía créditos superiores sobre a Global Media e defendia um encontro de contas.
De polémica em polémica
É neste cenário que a nova investigação do Página Um ganha especial peso: não se trata apenas de saber se JN, TSF e O Jogo conseguem sobreviver financeiramente, mas de conhecer quem colocou o capital que permitiu adquirir e sustentar essas marcas, através de que instrumentos e mediante que contrapartidas.

As interrogações atingem ainda maior dimensão por envolverem Domingos Andrade, cujo nome já surgira noutras polémicas. Na Operação Babel, elementos da investigação do Ministério Público publicados pela imprensa levantaram suspeitas sobre relações entre cobertura jornalística e contratos com a Câmara de Gaia. Andrade esteve igualmente envolvido num processo da Comissão da Carteira Profissional relacionado com a acumulação de funções editoriais e empresariais, bem como, durante a crise na Global Media, chegou a ser acusado em pleno Parlamento de uma situação que fez correr muita tinta – é que apesar de ter à sua disposição um Tesla elétrico suportado pelo grupo, simultaneamente apresentava despesas de gasóleo, tudo isto numa altura em que a empresa enfrentava graves dificuldades financeiras.
O problema que agora se coloca é, porém, maior do que qualquer polémica pessoal. Quando estão em causa três marcas históricas da comunicação social portuguesa, a identificação clara da origem do dinheiro que sustenta os seus proprietários é uma condição de transparência e independência editorial. E é precisamente essa transparência que a investigação do Página Um coloca agora em causa.

















