O Vaticano declarou oficialmente, na manhã desta quinta-feira, dia 2, que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), também conhecida como movimento lefebvrista, entrou em cisma com a Igreja Católica, após ordenar quatro bispos sem autorização do Papa.

A decisão foi comunicada através de um decreto do Dicastério para a Doutrina da Fé, assinado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández. O documento refere que o superior-geral da Fraternidade, D. Alfonso de Galarreta, "ao cometer um ato cismático através da consagração episcopal de quatro sacerdotes, sem mandato papal e contra a vontade do Sumo Pontífice", incorreu automaticamente nas sanções previstas pelo Código de Direito Canónico.

Como consequência, Galarreta, os quatro novos bispos e ainda Bernard Fellay, que participou na cerimónia realizada na Suíça, foram excomungados. Os bispos ordenados são o suíço Pascal Schreiber, o norte-americano Michael Goldade e os franceses Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier.

Não é a primeira vez que Galarreta e Fellay enfrentam esta sanção. Ambos já tinham sido excomungados em 1988, juntamente com outros dois bispos entretanto falecidos, depois de uma ordenação episcopal sem autorização da Santa Sé, decisão tomada durante o pontificado de João Paulo II.

Os lefebvristas receberam este nome por seguirem Marcel Lefebvre, um bispo francês que criou este movimento em 1970, em oposição às reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II. O movimento defende o regresso da missa em latim, rejeita várias mudanças implementadas pela Igreja nas últimas décadas e mantém posições tradicionalistas sobre a relação entre a religião e o Estado.

Embora reúna cerca de 730 sacerdotes, esteja presente em aproximadamente 70 países e reivindique cerca de meio milhão de seguidores, o Vaticano considera que a nova rutura representa um acontecimento de grande relevância para a Igreja Católica, uma vez que um cisma constitui uma quebra grave da comunhão eclesial. O último grande cisma histórico remonta a 1534, com o surgimento da Cisma Anglicano.

Nos últimos anos, a relação entre a Santa Sé e os lefebvristas passou por várias tentativas de reconciliação. Em 2009, o Papa Bento XVI levantou a excomunhão dos bispos ordenados em 1988, procurando aproximar o grupo da Igreja, mas as negociações acabaram por fracassar. Durante o pontificado do Papa Francisco foram reforçadas as restrições à celebração da missa em latim, medida fortemente contestada pela Fraternidade.

O decreto agora publicado deixa ainda um aviso aos fiéis, afirmando que "o clero e os fiéis leigos são advertidos a não aderirem ao cisma da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, pois incorrerão automaticamente na pena de excomunhão".

Numa nota explicativa, o Vaticano acrescenta que os sacerdotes da Fraternidade "administram ilicitamente os sacramentos" e considera inválidos os sacramentos da penitência e os casamentos celebrados por membros da organização. Apesar disso, a Santa Sé garante que continuará a acolher "com sincero afeto e profunda preocupação todos aqueles que desejam retornar à plena comunhão" com a Igreja.